Tenho reserva de emergência, mas ela está em um investimento com prazo. Isso pode ser um problema?

22 de jul. de 2026

Matheus Ribeiro, CFP®, responde:

Uma pesquisa da Planejar, em parceria com o Datafolha, mostrou que 43% dos brasileiros não têm nenhuma reserva de emergência guardada. O número já diz muito, mas esconde uma segunda pergunta: entre os que guardam, quantos sabem se esse dinheiro estará de fato disponível na hora em que a emergência chegar?

A reserva de emergência tem uma função específica dentro do planejamento financeiro pessoal: cobrir o imprevisto (a perda do emprego, um conserto inesperado) sem recorrer a dívidas nem vender outros investimentos em condições ruins. Por isso, o critério mais importante para escolher onde guardar esse dinheiro não é o quanto ele rende, e sim a rapidez com que pode ser resgatado sem perdas, o que o mercado chama de liquidez. Rentabilidade continua importando; ela só não pode passar na frente da facilidade de acesso.

Quando um investimento tem prazo, isso costuma significar que o valor aplicado só pode ser resgatado integralmente numa data futura, ou que existe carência, um período mínimo em que o resgate não é permitido, ou só é permitido com perda de parte do rendimento. Existe ainda um segundo risco, menos visível: alguns títulos têm preço que varia dia a dia até o vencimento, acompanhando o comportamento dos juros. Quem precisa vender antes da data combinada pode receber menos do que aplicou, mesmo que o título, levado até o fim, pagasse exatamente o que prometeu.

Uma despesa médica aparece sem aviso, a pessoa abre o aplicativo do banco para resgatar a reserva e encontra na tela um aviso de carência com alguns meses ainda pela frente. A partir daí, dois caminhos: se o resgate antecipado for permitido com desconto de rendimento, ela recebe menos do que contava, justamente na hora em que precisava do valor inteiro; se o investimento tiver preço variável até o vencimento, a mesma urgência pode obrigá-la a vender num momento ruim, realizando uma perda que, com um pouco mais de calma, teria sido evitada. O investimento em si pode até ser bom, adequado para outros objetivos. O que falhou foi o encaixe entre o prazo dele e o dia em que a emergência resolveu aparecer.

Para esse dia, o lugar da reserva são os instrumentos com liquidez diária e sem carência: títulos públicos atrelados à Selic (Tesouro Selic) ou CDBs de bancos sólidos, com resgate imediato e rendimento perto de 100% do CDI. Nesses casos, o dinheiro cai na conta no mesmo dia ou no dia útil seguinte, sem prazo mínimo e sem perda relevante de rentabilidade.

Vale fazer o teste com a própria reserva: se eu precisasse desse dinheiro hoje, ele estaria na conta ainda esta semana? O resgate sairia por inteiro, ou viria com desconto de rendimento ou variação de preço no meio do caminho? Se alguma resposta gerar dúvida, talvez seja o caso de reorganizar essa parte do patrimônio.

Quem tem reserva já está à frente de boa parte do país, e mesmo assim o trabalho não termina aí. O custo de vida muda, a família cresce, o emprego troca de cara, e a reserva que era suficiente há dois anos pode ter ficado pequena. Revisar esse dinheiro de tempos em tempos e, quando fizer sentido, conversar com um planejador financeiro certificado é o que mantém a reserva cumprindo a função para a qual ela existe: estar lá, inteira, no dia em que for chamada.

Matheus Ribeiro é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.
E-mail:
matheus@investimentosblue.com.br

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