Crianças e adolescentes que usam carteiras digitais deveriam começar a receber educação financeira diferente?

22 de jul. de 2026

Aline Dantas, CFP®, responde:

A utilização de carteiras digitais por crianças e adolescentes já faz parte da realidade brasileira. A criação de contas para menores de idade, com cartões pré-pagos e Pix, permitem que esse público tenha acesso a facilitação no pagamento e autonomia na movimentação do dinheiro desde cedo. Observando este ponto, entendemos que é necessário repensar na educação financeira oferecida às novas gerações, adaptando-a à realidade digital em que estão inseridas.

Diferente das décadas anteriores, quando o contato com o dinheiro acontecia de forma progressiva, através de notas, os jovens de hoje lidam com valores que aparecem como números na tela do celular. A disponibilidade e o volume de informações financeiras nas redes sociais, muitas vezes não confiáveis, proporcionam a criação de um ambiente mais desafiador para construção de hábitos saudáveis na relação com o dinheiro.

Informações apresentadas pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), edição 2022, destacam que 45% dos adolescentes brasileiros de 15 anos apresentam baixo desempenho em letramento financeiro. O Banco Central do Brasil também busca se dedicar ao tema por meio do programa Aprender Valor, que integra conteúdos de educação financeira a disciplinas do ensino fundamental, já demonstra uma preocupação com essa formação desde a infância.

Vale destacar que, a educação financeira envolve o aprendizado de conceitos básicos, como o uso de conta digital, a diferença entre poupar e gastar, e a compreensão de que todo recurso é limitado. Já em um planejamento financeiro, envolve organizar a vida financeira de acordo com objetivos e valores pessoais, considerando diferentes fases do ciclo de vida. Um planejador financeiro certificado CFP ®, é habilitado a orientar famílias na construção desse planejamento de forma técnica e personalizada.

Crianças que acompanham decisões financeiras desde cedo, criando metas de curto e longo prazo ou entendendo a diferença entre desejo e necessidade, tendem a desenvolver um relacionamento mais equilibrado com o dinheiro na vida adulta. Podemos observar que, quando um adolescente recebe uma mesada em carteira digital, ele pode ser estimulado a dividir o valor entre gastos imediatos, uma reserva para um objetivo específico e uma parcela de médio prazo, colocando em prática o conceito de planejamento.

Esse tipo de acompanhamento também ajuda a reduzir e identificar a influência de fatores externos e imediatos sobre as decisões financeiras dos jovens, como conteúdos de consumo divulgados nas redes sociais, muitas vezes desconexos da realidade de quem está do outro lado assistindo. Além disso, orientar o jovem a identificar seus próprios valores e prioridades contribui para que as escolhas futuras não sejam apenas repetição de padrões observados em casa, sejam de consumo excessivo ou de percepção de escassez, mas resultado de decisões pensadas anteriormente.

Segundo dados da Serasa, o Brasil tem mais de 70 milhões de pessoas endividadas atualmente. Esse número reforça a relevância de investir em formação financeira desde cedo, contribuindo assim, no longo prazo, para uma sociedade com relação mais saudável entre o crédito e o consumo.

Associar o uso de ferramentas digitais por crianças e adolescentes a um processo estruturado de planejar a vida financeira, em conjunto e com apoio de responsáveis, escolas e, quando necessário, de um planejador financeiro certificado, pode concretizar um caminho consistente para a formação de adultos mais conscientes para tomar decisões financeiras e alinhadas aos próprios valores e objetivos de vida.

Aline Dantas é planejadora financeira pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.
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aline.dantas.s@icloud.com

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