IA ganha papel de infraestrutura e transforma relação com o trabalho, aponta Ronaldo Lemos

17 de set. de 2026

Especialista destacou o avanço dos agentes de inteligência artificial, cases globais de sucesso e fracasso no setor financeiro e a urgência da governança contra fraudes com deepfake

São Paulo, 17 de setembro de 2026 - O avanço da inteligência artificial (IA) está transformando não apenas a forma como as pessoas trabalham, mas também a dinâmica geopolítica e a própria relação com a tecnologia. O tema foi discutido por Ronaldo Lemos, professor e fundador do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio), durante o Congresso Internacional Planejar 2026, em painel mediado por Guilherme Wertheimer, presidente do Conselho de Administração da Planejar. Na apresentação, o especialista abordou a chamada “era da imprevisibilidade” e destacou a evolução dos modelos de IA, o surgimento dos agentes capazes de executar tarefas e as mudanças que essa tecnologia começa a provocar no trabalho.

Segundo Lemos, empresas do setor tratam a inteligência artificial como uma nova infraestrutura da vida humana, em uma lógica semelhante à da eletricidade e da internet. A expectativa é que, à medida que diferentes atividades sejam conectadas aos sistemas de IA, a indisponibilidade dessas ferramentas possa passar a afetar diretamente a execução do trabalho.

O avanço da tecnologia também ocorre em meio a uma corrida global por inteligência artificial. Lemos destacou a disputa entre Estados Unidos e China, com estratégias diferentes para o desenvolvimento dos modelos. Enquanto os norte-americanos concentram esforços na fronteira tecnológica e em aplicações científicas, os chineses têm avançado em modelos mais baratos e de código aberto, que permitem maior possibilidade de customização e utilização a partir da própria infraestrutura.

A evolução dos chamados agentes de IA foi outro ponto central da apresentação. Diferentemente dos sistemas que apenas respondem a comandos, esses agentes podem executar tarefas e operar em ciclos sucessivos, permitindo a realização de atividades mais complexas. Para Lemos, essa mudança representa uma nova etapa na utilização da
tecnologia, em que o usuário passa a coordenar diferentes agentes em vez de executar individualmente todas as etapas de uma tarefa.

Nesse cenário, o trabalho humano tende a assumir uma função de coordenação. O especialista comparou esse novo papel ao de um maestro, responsável por acompanhar e organizar o trabalho realizado por diferentes agentes, verificando se cada etapa está sendo executada de maneira adequada.

A mudança também exige o desenvolvimento de novas habilidades. Lemos apontou a importância da capacidade de comunicação, da decomposição de problemas, da gestão de memória, da documentação e da orquestração de agentes. Também destacou características como atenção, organização cognitiva, adaptabilidade e ética como elementos relevantes para o uso da inteligência artificial.

“Quem tem um fundamento de ação ética, usa IA também melhor”, afirmou Lemos, ao destacar que o uso da tecnologia envolve decisões éticas de forma recorrente.

O especialista também apresentou exemplos pessoais para mostrar a velocidade dessa transformação. Em 2025, utilizou um agente de IA para realizar compras a partir de uma lista de produtos, delegando ao sistema a pesquisa dos itens e a montagem do carrinho. O resultado, porém, mostrou também os limites da tecnologia: o agente selecionou roupas de diferentes tamanhos para o mesmo período de desenvolvimento de seu filho. Para Lemos, o episódio demonstra a necessidade de cautela ao delegar atividades sobre as quais o usuário não possui conhecimento.

Já em 2026, os exemplos apresentados foram de outra natureza e envolveram a utilização da IA para desenvolver sistemas completos. Lemos relatou projetos de recriação do Instagram e do LinkedIn, desenvolvidos com auxílio da tecnologia, para atender a necessidades específicas de comunidades e usuários.

A comparação entre os exemplos de 2025 e 2026, segundo o especialista, evidencia a velocidade com que a capacidade dos sistemas de IA vem avançando. Nesse processo, a questão deixa de ser apenas como formular comandos para a tecnologia e passa a envolver como estruturar, acompanhar e coordenar agentes capazes de executar tarefas de maneira autônoma.

Cases no setor financeiro e os riscos de implementação

Para ilustrar o impacto prático nos negócios, Ronaldo Lemos citou exemplos bem-sucedidos e alertas do mercado corporativo internacional. No setor bancário, destacou o caso do JPMorgan, que investiu cerca de US$ 20 bilhões para implementar inteligência artificial para seus 240 mil funcionários, valor quatro vezes superior ao orçamento do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial. Segundo executivos da instituição, a ferramenta reduziu o tempo de execução de diversas atividades em até 96%, pagando o investimento inicial. Outro destaque foi o Goldman Sachs, que direcionou a IA prioritariamente para o desenvolvimento autônomo de códigos e softwares.

Por outro lado, Lemos ressaltou que decisões precipitadas ou sem controle de qualidade podem destruir valor de mercado. Ele citou o caso da fintech holandesa Klarna, que demitiu mais de metade de seus colaboradores  incluindo 700 atendentes de call center, apostando na substituição por IA, mas enfrentou o caos operacional e precisou recontratar equipes após perder grande parte de seu valuation, caindo de US$ 45 bilhões para US$ 5 bilhões.

Outro alerta crítico abordado pelo palestrante diz respeito à responsabilidade jurídica e à acurácia dos sistemas. Lemos lembrou episódios como o da Air Canada, em que a Justiça determinou que a empresa respondesse legalmente por erros cometidos por seu chatbot de atendimento, fixando o entendimento de que “o robô representa a instituição”. Ele também citou a parceria entre McDonald's e IBM no atendimento de drive-thrus, descontinuada após falhas recorrentes nos pedidos. “Uma taxa de 85% de acerto parece alta, mas significa que 1 a cada 7 pedidos vem errado. No setor financeiro e bancário, uma margem de erro dessas é intolerável; a acurácia precisa ser quase absoluta”, ponderou.

Cibersegurança, deepfakes e a urgência da governança

Ao analisar as tendências de consumo global, passando pela China, Índia, Coreia e Europa, Lemos reforçou que a jornada do consumidor está migrando para conversas via agentes inteligentes, vídeos ao vivo e pagamentos instantâneos. No entanto, o aumento da complexidade traz desafios urgentes de cibersegurança e proteção contra fraudes sofisticadas.

Como exemplo dos riscos de segurança com IA, o palestrante detalhou o ataque sofrido pela empresa britânica Arup, em Hong Kong, na qual um executivo transferiu US$ 26 milhões após ser enganado por uma videoconferência via Zoom em que todos os diretores presentes eram, na verdade, clones digitais (deepfakes) criados com áudio e imagem perfeitos.

“Ficar parado não é uma opção, mas não dá para adotar inteligência artificial sem governança”, concluiu Lemos. “Na medida em que os projetos ganham escala, a implementação precisa caminhar junto com mecanismos rígidos de controle, verificação e ética, sob o risco de inação ou obsolescência frente aos concorrentes.”

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O Brasil é o quinto país com mais planejadores financeiros certificados, com mais de 12 mil profissionais. No mundo, são mais de 236 mil. A certificação CFP® é uma certificação de distinção que traz um diferencial para a carreira do profissional. Para obtê-la, além de comprovar conhecimentos técnicos por meio de avaliação específica, o candidato também precisa comprovar formação acadêmica, experiência profissional e adesão a um código de ética. Para manter a certificação, o profissional precisa ainda cumprir requisitos de educação continuada.

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