O aumento do trabalho informal mudou o padrão de erro no Imposto de Renda?

8 de abr. de 2026

Luis Guingo, CFP®, responde:

O crescimento do trabalho informal, autônomo e por projeto tem transformado a forma como a renda é gerada no Brasil. Profissionais que atuam como prestadores de serviço, freelancers ou microempreendedores individuais (MEI) passaram a representar parcela relevante da força de trabalho. Esse movimento traz impactos diretos no cumprimento das obrigações tributárias, especialmente na Declaração de Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF).

Diferentemente do trabalhador com carteira assinada, cuja renda é informada à Receita Federal pela fonte pagadora, o profissional autônomo é responsável por apurar e declarar seus próprios rendimentos. Isso contribui para alterar o padrão dos erros mais frequentes nas declarações. Segundo dados divulgados anualmente pela Receita Federal, a omissão de rendimentos está entre os principais motivos de retenção em malha fiscal, responsável por 30,8% dos casos.

No contexto do trabalho informal, a omissão pode ocorrer por diferentes razões: recebimentos via TED ou PIX sem controle organizado, pagamentos em dinheiro sem registro formal ou desconhecimento da obrigatoriedade de recolhimento mensal pelo carnê-leão. O carnê-leão é o recolhimento mensal obrigatório do imposto devido por pessoas físicas que recebem rendimentos de outras pessoas físicas ou do exterior, sem retenção na fonte. Quando esse recolhimento não é feito corretamente, a inconsistência pode aparecer na declaração anual.

Outro erro frequente é a confusão entre receita bruta e lucro. Receita bruta, também chamada de faturamento, é o total recebido pelos serviços prestados. Lucro é o valor que sobra após a dedução das despesas necessárias à atividade, quando permitido pela legislação. Profissionais que não mantêm registro organizado das despesas podem declarar valores incorretos, estando sujeitos à cobrança ou questionamentos.

Há ainda situações envolvendo múltiplas fontes de renda. Um profissional pode ter renda proveniente de um trabalho formal e autônomo. Se declarar apenas o informe fornecido pela empresa e omitir os demais valores recebidos, haverá divergência nos cruzamentos eletrônicos realizados pela Receita Federal, que utiliza informações bancárias, notas fiscais eletrônicas e dados de terceiros.

Nesse cenário, o planejamento financeiro torna-se ferramenta essencial. Organizar fluxo de caixa, provisionar impostos e acompanhar obrigações acessórias são práticas que reduzem significativamente o risco de erros. O planejamento tributário, dentro dos limites legais, também permite avaliar a forma mais adequada de atuação, seja como pessoa física ou jurídica.

O papel do planejador financeiro certificado CFP® é apoiar a organização integrada da vida financeira do indivíduo. A atividade de planejamento financeiro, conforme diretrizes globais da certificação, gerida no Brasil pela Planejar (Associação Brasileira de Planejamento Financeiro), envolve gestão financeira, gestão de ativos, planejamento de aposentadoria, gestão de riscos, planejamento tributário e sucessório. No caso do trabalhador informal, a orientação técnica ajuda a estruturar reservas para pagamento de tributos, aposentadoria e proteção contra imprevistos, bem como a devida orientação para buscar um contador quando necessário.

Por exemplo, um profissional que recebe rendimentos variáveis ao longo do ano pode enfrentar dificuldade para pagar o imposto concentrado na declaração anual. Com organização prévia, é possível estimar a alíquota efetiva e se planejar para evitar endividamento ou uso inadequado de crédito.

Além disso, manter documentação organizada por pelo menos cinco anos, prazo em que a Receita pode solicitar comprovação, é medida prudente de gestão financeira. Extratos bancários, recibos, notas fiscais e comprovantes de despesas dedutíveis devem ser arquivados de forma sistemática.

O aumento do trabalho por projeto não altera as regras fundamentais do Imposto de Renda, mas modifica o perfil de risco do contribuinte. Quanto menor a retenção na fonte, maior a responsabilidade individual pela apuração e maior a necessidade de educação e planejamento estruturado.

Assim, com o apoio de um planejador financeiro CFP®, compreender as obrigações fiscais como parte do planejamento financeiro pessoal contribui para reduzir erros, evitar penalidades e fortalecer a estabilidade financeira de longo prazo.

Luis Guingo é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.
E-mail:
luis.guingo11@gmail.com

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Confira a publicação original do artigo: Época Negócios