Não tenho filhos. Isso muda a forma como devo pensar meu planejamento financeiro para o resto da vida?

16 de set. de 2026

Caio Leal, CFP®, responde:

Com o crescimento do número de pessoas sem filhos, seja por escolha ou por circunstância, essa é uma questão cada vez mais relevante. E, a resposta é sim, quem não tem filhos pode, e deve, pensar o planejamento financeiro de forma diferente de quem precisa deixar patrimônio para a próxima geração.

A maioria das pessoas planeja o patrimônio em duas camadas: uma parcela de consumo, para sustentar o próprio padrão de vida até o fim da existência, e uma parcela de transmissão, reservada a filhos e netos. Quem não tem herdeiros diretos pode simplificar essa conta e planejar apenas a parcela de consumo, já que não há, a princípio, necessidade de reservar saldo para transmissão. 

Uma referência conhecida no mercado para dimensionar essa parcela é a "regra dos 4%": multiplica-se o gasto anual por 25 para estimar o patrimônio necessário (quem gasta R$ 100 mil por ano precisaria de R$ 2,5 milhões acumulados) e, na aposentadoria, saca-se 4% desse total no primeiro ano, corrigindo o mesmo valor pela inflação nos anos seguintes (pensada para preservar boa parte do capital ao final do período), nem sempre o objetivo de quem não tem herdeiros. Por isso, serve mais como ponto de partida em que um planejador pode calibrar uma taxa de saque maior, pensada para consumir o patrimônio até o horizonte calculado.

Acumular até quando? Esse é um exercício técnico que um planejador financeiro certificado CFP® costuma chamar de planejamento de decumulação,que busca calcular não só quanto acumular, mas até quando o patrimônio precisa durar, no caso de um casal sem filhos, normalmente até o falecimento do último cônjuge sobrevivente. Esse cálculo leva em conta a expectativa de vida (dados como os do IBGE), somada a uma margem de segurança (a "gordura" do planejamento), para cobrir imprevistos como despesas médicas ou maior longevidade.

Para um casal, o horizonte relevante é o da sobrevivência conjunta, não da expectativa individual: a chance de que ao menos um dos dois viva além da média é maior do que se imagina, exigindo horizonte mais longo. Feito esse cálculo, dá para estruturar retiradas programadas do patrimônio, em vez de apenas preservar o capital principal sem necessidade.

Ausência de filhos não é ausência de legado, nem de herdeiros. Não ter filhos não significa renunciar a um legado, nem que não existam pessoas queridas para receber o patrimônio. Muitas pessoas preferem transmitir parte dos bens a um sobrinho, afilhado ou amigo próximo, e não a parentes distantes. Outras optam por constituir uma fundação, que exige patrimônio mínimo para ser viável, ou fazer doações a instituições filantrópicas, como ONGs e igrejas.

Vale ressaltar um ponto jurídico: na ausência de testamento, vale a ordem de sucessão do Código Civil, que nem sempre corresponde à vontade real da pessoa. Para beneficiar alguém fora dessa ordem, ou destinar bens a uma fundação ou instituição específica, isso deve estar expressamente registrado em testamento.Vale lembrar também da perda da capacidade de decidir, por doença ou acidente. Casos reais mostram como a falta de planejamento nessa hipótese pode gerar disputas familiares longas. Instrumentos como a autocuratela — indicação prévia, em cartório, de quem deve representar a pessoa em caso de incapacidade — merecem destaque num planejamento completo.

Um bom planejamento financeiro envolve entender o propósito de cada parcela do patrimônio e prever os cenários de incapacidade. Um planejador financeiro com a certificação CFP®, concedida pela Planejar, auxilia na estruturação dessas decisões, considerando os objetivos, o contexto familiar e os aspectos patrimoniais de forma integrada. Com tudo colocado na ponta do lápis, é possível organizar o legado com mais segurança, tranquilidade e eficiência.

Caio Leal é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejadores Financeiros.
E-mail:
caio.leal@btgpactual.com

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