Quem compra produtos parcelados consegue perceber quanto da renda futura já está comprometida?

16 de set. de 2026

Juliana Lira, CFP®, responde:

“Cabe no bolso.” Talvez essa seja uma das frases que mais influenciam as decisões de consumo do brasileiro. O celular pode ser parcelado, a passagem aérea dividida em dez vezes, a roupa em seis, o IFood em seis e até compras de menor valor aparecem acompanhadas da pergunta: “quer parcelar?”.Individualmente, cada prestação parece pequena. O problema começa quando deixamos de olhar para o conjunto.

Quem compra produtos parcelados com frequência consegue perceber quanto da renda dos próximos meses já está comprometida? Quando parte do salário que ainda nem recebemos já tem destino certo, uma parcela aparentemente confortável pode disputar espaço com contas fixas (exemplo: aluguel, conta luz, conta de água entre outras despesas), imprevistos e outras compras feitas anteriormente.

Não por acaso, dados recentes ajudam a dimensionar o quanto o parcelamento está incorporado aos hábitos de consumo do brasileiro. No primeiro trimestre de 2026, 43,2% do valor movimentado no cartão de crédito correspondeu a compras parceladas sem juros, segundo a Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões e Serviços) foram R$ 390,5 bilhões.

Mas por que é tão fácil acumular parcelas?Parte da resposta está na maneira como nosso cérebro percebe o ato de comprar e o de pagar. Quando entregamos dinheiro ou vemos imediatamente nosso saldo diminuir, sentimos com maior clareza que aquele recurso deixou de estar disponível. Existe um desconforto associado ao pagamento que funciona como um freio para o consumo.

No crédito, essa experiência muda. O prazer da compra acontece agora. O pagamento fica para depois.Essa distância pode enfraquecer a ligação entre comprar e pagar. Em vez de avaliar quanto determinado produto realmente custa e qual impacto terá sobre o orçamento, passamos analisar se a parcela cabe naquele momento.

E aí aparece uma armadilha bastante comum: nosso cérebro gosta de simplificar decisões.Em meio à rotina, não fazemos uma análise financeira completa antes de cada compra. Utilizamos atalhos mentais, conhecidos pela economia comportamental como heurísticas. Eles são importantes para tomarmos centenas de decisões diariamente, mas também podem nos levar a escolhas financeiras pouco eficientes.

Um desses atalhos acontece quando nossa atenção fica concentrada na informação mais fácil e visível. Em uma oferta parcelada, muitas vezes essa informação não é o preço, mas o tamanho da prestação.O “10x sem juros” ganha destaque. O valor total perde espaço.

Há também outro comportamento muito humano: valorizamos mais aquilo que podemos aproveitar hoje e tendemos a deixar o problema futuro para ser resolvido depois. É fácil acreditar que, nos próximos meses, estaremos mais organizados, teremos menos despesas ou conseguiremos compensar aquela compra.

Só que o futuro chega acompanhado do condomínio, da escola, do supermercado, dos serviços por assinatura, da prestação do carro, dos impostos (IPTU e IPVA) das compras anteriores e dos imprevistos que não estavam no planejamento.É nesse momento que muitas pessoas percebem que não fizeram uma compra parcelada. Fizeram várias pequenas antecipações da própria renda.

Isso não significa que parcelar seja necessariamente uma decisão ruim. O parcelamento pode ser uma ferramenta útil de organização financeira e, em algumas situações, preservar recursos para outras necessidades. O problema não está simplesmente em dividir o pagamento, mas em perder a visão de quanto da renda futura já está comprometida.

Talvez, portanto, uma das perguntas mais importantes antes de uma nova compra não seja “a parcela cabe no meu salário?”, mas “quanto do meu próximo salário já está comprometido antes mesmo de eu recebê-lo?”.Essa pequena mudança de perspectiva ajuda a trazer o futuro de volta para a decisão presente.

É aí que entra o planejamento financeiro. Não como uma planilha complicada ou uma restrição permanente ao consumo, mas como uma forma de enxergar o todo. Saber quanto se ganha, quanto já está comprometido, quais são as despesas fixas e quais objetivos ainda precisam ser financiados permite decidir com maior consciência.

Criar uma lista do que se deseja comprar, estabelecer prioridades e definir prazos também ajuda a separar desejo de necessidade e impulso de planejamento. Para quem encontra dificuldade em organizar sozinho essas informações, o acompanhamento de um profissional de planejamento financeiro pode ajudar a transformar renda em escolhas mais conscientes.

Em uma sociedade na qual comprar ficou cada vez mais fácil, talvez o verdadeiro desafio seja manter visível o momento de pagar.Porque uma parcela pequena pode até caber no orçamento de hoje. A questão é saber quantas decisões de ontem já estão esperando pelo salário de amanhã.

Juliana Lira é planejadora financeira pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.
E-mail: 
julianaanitalira@gmail.com.br

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Época Negócios