Ao me aposentar, como usar dinheiro aplicado sem gastar tudo?

20 de jul. de 2026

Vinicius Panizza, CFP®, responde:

A pergunta que define a qualidade da aposentadoria não é apenas quanto acumular, mas quanto retirar sem comprometer a sustentabilidade dos recursos. Em um país que envelhece rapidamente e ainda poupa pouco para o longo prazo, essa decisão tornou-se central no planejamento financeiro. 

Dados recentes ajudam a dimensionar o desafio. A expectativa de vida do brasileiro, segundo o IBGE, já supera 76 anos e segue em trajetória de crescimento, ampliando o período de aposentadoria. Ao mesmo tempo, levantamentos da ANBIMA mostram que 31% dos brasileiros não possuem qualquer reserva financeira e outros 32% têm menos do que o recomendado, indicando que cerca de dois terços da população não contam com uma base adequada de segurança financeira.

Esse descompasso entre maior longevidade e baixa capacidade de acumulação exige maior disciplina no planejamento ao longo da vida. Mas, para retirar recursos na aposentadoria, é preciso tê-los, e essa decisão de querer ter uma aposentadoria tranquila começa cedo, por isso a regra 1-3-6-9 desenvolvida pelo Itaú, pode ajudar se está no caminho certo. Ela mostra quantos anos de salário precisam ser acumulados em cada momento da vida. Se você tiver 35 anos, deverá ter 1 ano de salário acumulado. Se tiver 45 anos, deverá ter 3; se tiver 55 anos, deverá ter 6; e se tiver 65 anos, deverá ter 9 anos de renda acumulada. Essa é uma forma simples de saber se seu planejamento de longo prazo está em linha com suas expectativas. 

Se a fase de acumulação já exige disciplina, a fase de uso dos recursos demanda ainda mais atenção. Isso porque passamos a lidar com variáveis adicionais, como expectativa de vida, inflação, comportamento dos mercados e necessidades de renda ao longo do tempo.

No momento da aposentadoria, é comum observar mudanças no padrão de vida e na forma de utilização do tempo. Por isso, o planejamento deve considerar não apenas a renda necessária, mas também a previsibilidade dos gastos e a existência de outras fontes de recursos. Além da renda a ser recebida pelo INSS, ter reservas em produtos de previdência complementar, renda passiva de fundos imobiliários, aluguéis, dividendos de ações, Tesouro RendA+ e aplicações em fundos para a proteção do dia a dia são fundamentais para proteger o patrimônio contra imprevistos

Do ponto de vista técnico, a taxa de retirada sustentável na aposentadoria depende da relação entre patrimônio acumulado e renda desejada na aposentadoria. Em termos simplificados, retirar valores equivalentes ao retorno dos investimentos preserva o capital. Já retiradas superiores tendem a reduzir o patrimônio ao longo do tempo. Por exemplo, um patrimônio de R$ 1 milhão que gera retorno de 1% ao mês permite uma retirada próxima a R$ 10 mil mensais sem redução relevante do principal, desconsiderando impostos e volatilidade. Por outro lado, retiradas mais elevadas exigem maior patrimônio ou implicam no risco de esgotamento dos recursos, e assim, pode haver falta de recursos em momentos que mais precisamos.

Outro fator crítico que não pode ser deixado de lado é a inflação, que impacta diretamente o poder de compra. Em horizontes longos, manter a renda real exige que os investimentos superem a inflação, o que reforça a importância da diversificação e da alocação adequada dos investimentos.

Diante dessas variáveis, não há uma taxa única aplicável a todos os casos. A definição da retirada deve fazer parte de um planejamento financeiro estruturado, que considere longevidade, perfil de risco, dinâmica dos mercados e padrões de consumo.

Mais do que buscar um número fixo, o desafio está em construir uma estratégia adaptável ao longo do tempo. Nesse contexto, o apoio de um planejador financeiro certificado CFP® contribui para traduzir conceitos técnicos em decisões práticas, promovendo equilíbrio entre renda no presente e segurança no futuro.

Vinícius Panizza é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.
E-mail:
vinicius.panizza@gmail.com         

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 Confira a publicação original do artigo: Valor Econômico