Como a diversificação geográfica minimiza riscos?

2 de fev. de 2026

Rafael Pires, CFP®, responde:

Sabemos que a diversificação de ativos é um dos temas mais relevantes na construção de um portfólio de investimentos. No entanto, essa diversificação pode ser ainda mais eficiente quando se exploram oportunidades fora do país. Compreender essa estratégia é essencial para fortalecer a proteção patrimonial e sucessória, além de ampliar o acesso a diferentes ativos, legislações e mercados, tornando o planejamento financeiro mais robusto.

Um dos grandes pensadores das finanças já se dedicava à redução dos riscos inerentes aos investimentos. Foi nesse contexto que surgiu a Teoria Moderna de Portfólio, desenvolvida por Harry Markowitz, professor de finanças da Rady School of Management na Universidade da Califórnia, com o objetivo de estabelecer uma estratégia eficiente de alocação dos ativos de uma carteira. Um dos pilares dessa teoria é a inclusão de ativos distintos, que não respondam de forma semelhante aos eventos de mercado, minimizando os impactos das oscilações.

Aplicar esses princípios a mercados internacionais amplia ainda mais os benefícios da diversificação. Ao utilizar instrumentos financeiros de outros países (ações, títulos, derivativos, entre outros), o investidor potencializa a dispersão de riscos. Por exemplo: ao investir apenas em empresas varejistas brasileiras, a carteira fica exposta às condições econômicas domésticas e às regras locais. Ao selecionar empresas do mesmo segmento, porém de diferentes países, é possível reduzir a influência de cenários econômicos específicos, como diferenças de concorrência, tributação ou incentivos governamentais.

Outro aspecto relevante do planejamento financeiro, muitas vezes pouco percebido pelos investidores, é a sucessão patrimonial no exterior. Em decisão unânime, a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça declarou que bens mantidos no exterior não integram o inventário realizado no Brasil. Isso ocorre porque, estando fora do país, tais bens não se submetem à jurisdição nacional, devendo seguir a legislação estrangeira e as diretrizes do direito internacional. Dessa forma, em caso de falecimento, a transferência aos beneficiários ocorre automaticamente, sem passar pelo inventário brasileiro. É fundamental, entretanto, cadastrar o beneficiário na instituição financeira por meio do mecanismo TOD (Transfer on Death), ou “Transferência em Caso de Morte”.

Além da diversificação de riscos e da proteção sucessória, investir globalmente em moedas mais fortes — como dólar ou euro — contribui para reduzir a exposição às instabilidades do cenário doméstico. Uma carteira internacionalmente diversificada protege contra incertezas econômicas e políticas brasileiras. O mercado financeiro nacional representa uma parcela pequena do mercado global e, seguindo a lógica de Markowitz, limitar-se apenas a ativos domésticos restringe o potencial de diversificação. A diversificação geográfica permite acesso a empresas globais de alta performance e a setores inovadores, como tecnologia, que podem fortalecer o portfólio de forma consistente, independentemente do momento econômico local.

Existem diversas estratégias de investimento, sejam domésticas ou internacionais, mas o importante é que o investidor não deixe de utilizá-las por receio. Contar com o apoio de um profissional certificado em planejamento financeiro, especialmente com expertise internacional, contribui para reduzir inseguranças e aprimorar a tomada de decisão.

Rafael Nogueira Pires é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.
E-mail:
rafael.nogueira@xpi.com.br

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Confira a publicação original do artigo: Valor Econômico