Vale a pena manter muito dinheiro parado em momentos de incerteza?

27 de mai. de 2026

Marcia Dessen, CFP®, responde:

Não, não vale a pena manter muito ou pouco dinheiro parado. Ao fazer isso, deixamos de colocar o dinheiro para trabalhar a nosso favor e renunciamos aos rendimentos sobre o capital que não foi investido. No contexto atual, com a taxa básica de juros em 14,50% ao ano, para cada R$ 100 mil parados, deixamos de ganhar R$ 14,5 mil por ano. Trata-se de uma perda, neste caso, uma perda por custo de oportunidade bastante elevada.

Em momentos de incerteza, essa decisão poderia ser diferente? Não. Em momentos assim, buscamos proteção em investimentos seguros e líquidos de renda fixa. “Seguros” significa com o menor nível de risco possível: evitamos risco de crédito (possibilidade de insolvência do emissor dos títulos), risco de mercado (oscilação de preços) e risco de liquidez, presente em investimentos com carência ou que não podem ser resgatados antes do vencimento. Optamos por aplicações que permitam a retirada total ou parcial do capital a qualquer momento, sem possibilidade de perdas dos rendimentos ou do principal.

Quais investimentos são considerados seguros e líquidos?

Em primeiro lugar, e aproveitando o recente lançamento do mais novo título público federal, temos o Tesouro Reserva, criado para acolher milhões de pessoas que ainda não investem ou se limitam a manter o dinheiro na poupança.

Basta R$ 1 para começar a investir. O produto está disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana, e rende 100% da taxa Selic vigente, sem a temida marcação a mercado, que provoca oscilações no valor e, eventualmente, a desagradável percepção de perda. A venda antecipada pode ser feita a qualquer momento pelo valor conhecido, o que proporciona conforto ao investidor.

Inicialmente disponível somente nas agências do Banco do Brasil, a expectativa é de que, em breve, todos os bancos e corretoras ofereçam o produto. Se estiver integrado ao Pix como forma de pagamento e recebimento, melhor ainda.

No setor privado, o CDB (Certificado de Depósito Bancário) é uma alternativa. Oferece liquidez diária, conta com garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e pode ser operado pelo aplicativo das instituições financeiras. Porém, a taxa de remuneração pode variar entre os bancos e conforme o valor investido. Nesse sentido, o Tesouro Reserva leva vantagem, com rentabilidade equivalente a 100% da taxa Selic, independentemente do montante aplicado.

Fundos de investimento atrelados à variação da taxa CDI, conhecidos como fundos DI, também são uma alternativa. Contudo, como cobram taxa de administração, raramente alcançam remuneração equivalente a 100% do CDI. Quando a rentabilidade tende a ser maior, normalmente existem riscos potenciais na carteira do fundo, o que faz com que deixem de ser uma alternativa totalmente segura. A liquidez é diária, mas, normalmente, o valor mínimo de aplicação é de R$100.

Os rendimentos proporcionados pelos três produtos mencionados,Tesouro Reserva, CDB e fundos DI, estão sujeitos ao pagamento de imposto de renda, conforme a tabela regressiva de alíquotas, além da incidência de IOF quando o prazo da aplicação for inferior a 30 dias.

Um bom planejamento financeiro permitirá que o prazo da aplicação seja um pouco mais longo, evitando a incidência do IOF e possibilitando o pagamento da menor alíquota possível de imposto de renda.

Momentos de incerteza surgem com frequência e exigem prudência na hora de investir, mas não justificam deixar o dinheiro parado, especialmente em períodos de elevado custo de oportunidade, como o atual.

Agora, se o receio do leitor se refere a outros riscos, como o confisco ocorrido em 1990, posso dizer que é baixíssima a probabilidade de isso acontecer novamente. A medida foi ineficaz e incapaz de impedir a alta da inflação, que só foi controlada a partir do Plano Real, quatro anos depois.

Quem viveu uma experiência traumática, como um confisco, uma fraude ou uma orientação inadequada, não esquece. Em casos assim, a perda vai muito além da financeira: trata-se de uma perda de confiança, muito difícil de recuperar.

Marcia Belluzo Dessen é planejadora financeira pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.
Email:
marcia.dessen@gmail.com

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Confira a publicação original do artigo: Época Negócios