Seu patrimônio está todo na empresa? O risco do empreendedor ao reinvestir tudo no próprio negócio

21 de out. de 2026

Marco Harbich, CFP®, responde:

Reinvestir no próprio negócio costuma ser uma decisão racional, em que poucas aplicações oferecem retorno comparável ao de uma empresa em crescimento. O problema não está no reinvestimento em si, mas em transformá-lo na única estratégia de construção do patrimônio familiar.

Quando isso acontece, o empreendedor passa a conviver com o chamado risco de concentração, que é a dependência excessiva de um único ativo. Em estudo publicado na American Economic Review, os pesquisadores Moskowitz e Vissing-Jørgensen (2002) mediram a dimensão do fenômeno nos Estados Unidos e constataram que cerca de 75% de todo o capital investido em empresas fechadas pertencia a famílias para as quais esse ativo representava pelo menos metade do patrimônio total. Além disso, essas famílias mantinham, em média, mais de 70% desse capital em uma única empresa.

No Brasil, os números reforçam a cautela. Segundo a pesquisa Demografia das Empresas e Estatísticas de Empreendedorismo, do IBGE (2024), apenas cerca de 37% das empresas empregadoras nascidas em 2017 continuavam ativas cinco anos depois. Quando o tema é sucessão, estudos clássicos sobre empresas familiares, como os de Ward (1987), estimam que somente 30% delas sobrevivem à transição para a segunda geração e cerca de 5% chegam à terceira. Ou seja, para muitas famílias, a empresa não cumprirá sozinha o papel de patrimônio de longo prazo.

Há ainda a questão da liquidez, que é a facilidade de converter um bem em dinheiro sem perda relevante de valor. Uma empresa é um ativo de baixa liquidez. Afinal, vender uma participação societária leva tempo, depende de encontrar compradores e, com frequência, o valor do negócio está ligado à presença do próprio fundador, o que reduz o preço justamente quando ele deseja se afastar.

Um exemplo hipotético ilustra o contraste. Um empresário que direcionou todo o lucro à operação por vinte anos chega aos 60 anos dependendo de vender a empresa ou de continuar retirando dela sua renda. Já outro, que destinou desde cedo uma parcela fixa dos lucros, entre 15% e 20%, a investimentos em seu próprio nome, construiu um patrimônio pessoal diversificado, que gera renda independentemente do desempenho do negócio e lhe dá liberdade para decidir quando e como se afastar.

O planejamento financeiro trata exatamente desse equilíbrio. O primeiro passo é separar as finanças da pessoa jurídica das finanças da pessoa física, definindo uma remuneração regular do sócio, composta pelo pró-labore, que é o pagamento pelo trabalho exercido na empresa, e pela distribuição de lucros. A partir daí, algumas etapas merecem atenção: (i) a reserva de emergência pessoal, mantida em aplicações de alta liquidez e baixíssimo risco; (ii) a diversificação gradual entre classes de ativos, como renda fixa, renda variável e previdência privada; (iii) a proteção por meio de seguros adequados; (iv) o planejamento sucessório, que organiza em vida a transferência do negócio e dos bens, reduzindo custos e conflitos e garantindo a perpetuidade do negócio.

Reinvestir e construir patrimônio pessoal, portanto, não são caminhos opostos, e sim complementares, pois mesmo um percentual modesto e constante dos lucros, investido fora da empresa, tende a produzir efeitos significativos no longo prazo graças aos juros compostos, sem comprometer o crescimento do negócio.

Nesse processo, contar com um planejador financeiro pode fazer diferença. O planejador financeiro certificado, detentor da certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida no Brasil pela Planejar, é o profissional preparado para analisar a vida financeira de forma integrada, considerando investimentos, tributos, proteção, aposentadoria e sucessão. Cabe a ele ajudar o empreendedor a responder, com método, a uma pergunta essencial: se a empresa deixasse de existir amanhã, qual patrimônio restaria à família?

Marco Harbich, é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.
E-mail: marco.harbich@gordoncapital.com.br

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Confira a publicação original do artigo: Época Negócios