
O que muda na carteira com a queda da Selic?
22 de jun. de 2026
Paulo Secco, CFP®, responde:
Em março de 2026, o Banco Central cortou a taxa Selic em 0,25%, dando início ao que pode ser um novo ciclo de queda de juros. Em abril, veio o segundo corte, também de 0,25%, levando a taxa básica a 14,50% ao ano. As projeções do mercado indicam que novos cortes devem ocorrer nas próximas reuniões, desde que a inflação continue controlada e o cenário externo colabore.
O último Relatório Focus, divulgado semanalmente pelo Banco Central, consolida as expectativas de mais de 100 instituições financeiras e projeta a Selic em 13% ao final de 2026 e em 11% ao final de 2027. Esse documento funciona como um termômetro confiável do sentimento econômico do país.
A queda de juros costuma ocorrer quando a inflação perde força. Nesse contexto, o Banco Central adota uma política monetária mais expansionista, ou seja, estimula a economia ao reduzir os juros. Na prática, isso faz com que aplicações de renda fixa atreladas à Selic ou ao CDI rendam menos. Um investidor que tinha R$ 100 mil em um CDB rendendo 100% do CDI a 14,50% ao ano, por exemplo, passa a receber menos à medida que a taxa recua.
Diante dessa mudança, é importante revisar a carteira de investimentos. É exatamente aqui que o planejamento financeiro ganha ainda mais relevância: ele ajuda a reorganizar os recursos de forma organizada, considerando o perfil de risco, os objetivos e o prazo de cada pessoa.
Como os investimentos em renda fixa pós-fixada perdem atratividade conforme a taxa de juros reduz, quem mantém grande parte do dinheiro nesses produtos sem ajustes pode ver o rendimento real cair ao longo do tempo. Por outro lado, surgem oportunidades interessantes em outras classes de ativos.
Títulos prefixados e IPCA+ emitidos quando os juros estavam mais altos, por exemplo, tendem a subir de preço no mercado secundário. Isso ocorre porque eles continuam pagando uma taxa mais elevada do que as novas emissões, um efeito chamado de marcação a mercado. Migrar parte dos recursos para esses títulos de prazos mais longos permite “travar” rentabilidades melhores antes que os juros caiam ainda mais.
Os Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) também costumam se beneficiar. Normalmente, os rendimentos distribuídos isentos de imposto ficam mais atrativos em comparação com a renda fixa tradicional. Um fundo que paga 12% ao ano em dividendos, por exemplo, ganha força relativa quando o CDI cai de 15% para 12%.
Na renda variável, empresas mais endividadas — como construtoras e varejistas — tendem a ter vantagem. O custo da dívida diminui e a taxa usada para calcular o valor futuro dos negócios também cai, o que pode elevar o preço das ações. Setores ligados a consumo e crédito geralmente reagem bem nesse ambiente.
Além disso, em um cenário de Selic mais baixa, incluir uma parte de ativos internacionais (como ações estrangeiras ou fundos cambiais) pode trazer diversificação e proteção, sempre dentro do que foi definido no planejamento financeiro pessoal.
A queda de juros não é um problema, mas um convite para ajustar a estratégia com inteligência. Fazer essas mudanças exige cuidado: manter a reserva de emergência em aplicações líquidas, considerar os impostos nas trocas de investimento e evitar concentração excessiva em um único ativo são cuidados básicos. O ideal é revisar a carteira periodicamente.
Um planejador financeiro certificado CFP® não recomenda alterações por impulso ou por manchete de jornal. O processo começa com um diagnóstico completo da situação atual do investidor (objetivos como aposentadoria, compra da casa própria ou educação dos filhos) levando sempre em consideração a tolerância ao risco e o horizonte de tempo. A partir daí, ele define os passos: avaliar como a carteira está composta hoje, identificar o que perde atratividade, rebalancear gradualmente e acompanhar o cenário, pois o ciclo de juros pode mudar de direção.
O profissional com certificação CFP® é qualificado pela Planejar (Associação Brasileira de Planejadores Financeiros). Ele possui formação sólida em investimentos, tributos, riscos e planejamento de longo prazo, o que garante uma orientação técnica, ética e sem conflitos de interesse.
Paulo Roberto Chahad Secco é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.
E-mail: paulo.secco@montealtoinvest.com.br
As respostas refletem as opiniões do autor e não do jornal Valor Econômico ou da Planejar. O jornal e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para: consultoriofinanceiro@planejar.org.br
Confira a publicação original do artigo: Valor Econômico

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