Eleições 2026 e mercado financeiro: o que fazer com os seus investimentos?

18 de jun. de 2026

Jaiana Lange, CFP®, responde:

Ano eleitoral chegou, e com ele uma sensação familiar para quem investe no Brasil: a inquietação. Será que devo mudar minha carteira? O dólar vai subir? A bolsa vai cair? Essas dúvidas são legítimas, mas agir por impulso diante delas costuma ser o maior erro que um investidor pode cometer. Quem entende o que realmente acontece com o mercado em anos eleitorais tende a tomar decisões bem diferentes de quem reage apenas ao noticiário. E o que os dados mostram pode surpreender.

Análises do comportamento do principal índice da bolsa brasileira, o Ibovespa, mostram que a volatilidade tende a ser ligeiramente maior em anos eleitorais do que em períodos não eleitorais. Volatilidade é, grosso modo, o preço da incerteza: um termômetro que indica o quanto os investimentos podem oscilar diante do que ainda não se sabe. Em períodos eleitorais, o futuro da política econômica fica em aberto, especialmente no que se refere à responsabilidade fiscal, tributação e câmbio. Com isso, os investidores tendem a exigir um prêmio de risco maior para manter posições em ativos brasileiros, ou seja, uma rentabilidade adicional para investir em algo mais arriscado em comparação a alternativas mais seguras. Quando esse prêmio aumenta, a bolsa cai e o dólar sobe.

Segundo levantamento da Ágora Investimentos, divulgado em fevereiro de 2026, a volatilidade média do Ibovespa em anos eleitorais é de 23,93%, contra 20,91% em anos sem eleições presidenciais. Isso mostra que a diferença existe, mas não configura um colapso de mercado. O estudo aponta ainda que essa oscilação se concentra sobretudo no segundo semestre, quando a campanha ganha força. Após o encerramento do pleito, o mercado historicamente tende a se recuperar, com a redução das incertezas reacendendo o apetite por investimentos.

Mas então, o que fazer enquanto a tempestade não passa? Em 2026, o ambiente já é naturalmente desafiador, com Selic elevada, inflação monitorada e debate fiscal aquecido. Evitar que decisões emocionais comprometam objetivos de médio e longo prazo não é um conselho genérico: é uma necessidade concreta.

Entre as principais estratégias recomendadas, destacam-se: a diversificação da carteira, pode parecer conselho batido, mas é batido por uma razão. Combinar diferentes classes de ativos, moedas e setores tende a gerar desempenho mais resiliente do que uma alocação concentrada. Reserva de emergência e liquidez: ter entre três e doze meses de despesas mensais em ativos de alta liquidez e baixo risco é inegociável. Isso impede que imprevistos forcem o resgate de investimentos no pior momento.

Além disso, é necessário a adequação ao perfil e ao horizonte de investimento, quem poupa para a aposentadoria tem necessidades muito diferentes de quem possui um objetivo de curto prazo. A carteira precisa conversar com os seus objetivos, não com o noticiário. Atenção ao câmbio: o dólar costuma ser uma das variáveis mais sensíveis ao calendário eleitoral. Uma parcela em ativos dolarizados ou fundos internacionais pode funcionar como hedge cambial, estratégia que busca compensar perdas em um ativo com ganhos em outro.

E, por último, mas não menos importante, a revisão periódica da carteira: o planejamento financeiro não é estático. A Planejar, Associação Brasileira de Planejadores Financeiros e responsável pela certificação CFP® no Brasil, recomenda revisões ao menos uma vez ao ano com um planejador financeiro certificado, verificando se a estratégia ainda está alinhada aos objetivos, ao perfil de risco e ao contexto econômico.

Saber o que fazer já é meio caminho andado. A outra metade está em reconhecer o que evitar, ou seja, o que definitivamente não fazer.

As armadilhas mais comuns têm algo em comum: parecem racionais no calor do momento, mas não são. Um exemplo disso é tomar decisões com base no noticiário. Manchetes negativas ativam o instinto de proteção, e a reação imediata costuma ser vender. O problema é que, quando o investidor decide agir, o mercado já precificou boa parte da notícia.

Outra atitude muito comum é liquidar toda a carteira de renda variável por medo, abrindo mão da recuperação que historicamente costuma aparecer após o período de maior incerteza e perdendo, assim, os dias de alta que mais pesam no resultado anual.

Também é comum que investidores menos familiarizados com oscilações de mercado assumam posições mais arrojadas do que o perfil permite na tentativa de aproveitar oportunidades pontuais, pois a volatilidade cria a ilusão de que é possível prever o fundo do mercado. Raramente é.

No fim, o investidor que atravessa bem um ano eleitoral não é o mais informado sobre política. É aquele que consegue separar o ruído do que realmente importa para o seu patrimônio. Anos eleitorais passam, os governos mudam e o mercado se ajusta. O que permanece é o resultado de quem teve disciplina quando era mais fácil ceder ao impulso.

Jaiana Lange é planejadora financeira pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.
E-mail:
jaiana.lange@cazacapital.com.br

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Confira a publicação original do artigo: Época Negócios