O hábito de pagar tudo por aproximação pode reduzir a percepção real de gasto no dia a dia?

5 de ago. de 2026

Maria de Fatima da Silva Catira, CFP®, responde:

As tecnologias avançaram e transformaram a forma como lidamos com o dinheiro. Entre essas inovações mais populares no Brasil, o pagamento por aproximação via cartões, smartfones e smartwatch (relógio inteligente) ganha o holofote.

Dados da FEBRABAN e BACEN divulgam que esse meio de pagamento representa a maior parte das transações presenciais do país. Entretanto, essa praticidade apresenta um questionamento vital para o planejamento financeiro: o hábito de pagar por aproximação reduz a verdadeira percepção de gastos diários? Sim é a resposta, conforme a Psicologia Econômica e as Finanças Comportamentais que estuda o conceito “dor do pagamento” (pain of paying). Esse termo técnico aborda o desconforto psicológico imediato que é observado ao se desfazer de recursos financeiros.

Quando usamos o dinheiro em espécie vemos cédulas saindo da carteira e contabilizamos o valor, refletindo na perda material imediata. Com o cartão de crédito com uso de chip e senha, esse processo foi reduzido, mas ainda se faz necessário etapas conscientes, como a de inserir o cartão e digitar a senha. Cada uma dessas etapas funciona como freio psicológico, sendo uma parada que força o cérebro a processar a transação.

No pagamento por aproximação se elimina completamente essa parada, o ato de aproximar o cartão, leva menos de dois segundos, sem necessidade do uso de senha e verificação do valor final. Neurologicamente o cérebro registra apenas a recompensa imediata do consumo, mas não o real valor financeiro, gerando um efeito de dormência financeira. Para exemplificar, vamos considerar que um consumidor compra diariamente um café e um pão de queijo por R$20 usando notas em espécie, onde precisa abrir a carteira, ver quanto tem disponível para usar, e observa que diariamente seu montante está diminuindo. Caso ele opte por pagar por aproximação esses R$20 se tornam imperceptíveis em sua rotina.

Ao final do mês o impacto de R$600 pode ser uma surpresa negativa em seu extrato bancário ou em sua fatura. O gasto ocorreu diariamente, mas a mente não contabilizou, apenas quando consolidou o valor total. Neste cenário de instabilidade comportamental, o planejador financeiro se torna essencial, seu papel vai além de planilhas de controle, pois envolve educar e reeducar o cliente sobre vieses cognitivos que afetam a tomada de decisão. Um planejador financeiro certificado possui qualificações técnicas para identificar esses comportamentos que invalidam o planejamento financeiro, auxiliando a reorganizar o orçamento doméstico de forma eficiente.

Devemos adotar estratégias de monitoramento das compras diárias para contrabalancear a perda de percepção de gasto gerada pela aproximação, como alertas instantâneas no celular após cada transação, uso de APPs para registros rápidos de consumo, assim criamos uma “parada artificial” após aproximar o cartão, reativando a percepção do prejuízo financeiro e controle do orçamento. Outra estratégia é definir teto de gastos semanais para despesas supérfluas.

A tecnologia de aproximação é valiosa para a eficiência do Sistema de Pagamentos. No entanto, exige que o consumidor se autodiscipline. O planejamento financeiro atua estrategicamente para usufruir da modernidade tecnológica sem perder o foco no patrimônio e objetivos.

Maria de Fatima da Silva Catira é planejadora financeira pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.
Email:
fatimacatira@hotmail.com

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