
Dividendos altos podem esconder risco?
6 de jul. de 2026
Renato Sartori Duran, CFP®, responde:
Imagine que dois amigos te pedem R$ 10 mil emprestados. O primeiro tem emprego estável há dez anos, salário caindo certinho todo mês. O segundo está desempregado, com dívidas acumuladas e prometendo que vai 'dar um jeito'. Você emprestaria para os dois cobrando a mesma coisa? Provavelmente não. Do amigo estável, talvez nem cobrasse juros. Já do outro, cobraria muito mais ou simplesmente recusaria o empréstimo.
Sem perceber, você acabou de entender uma das regras mais importantes do mercado financeiro: quanto maior o risco, maior o retorno exigido. Retornos elevados costumam ser uma compensação pelo risco assumido, e não um presente.
Quando uma ação apresenta um dividend yield de 10%, 12% ou até mais, muitos investidores pensam ter encontrado a fórmula da renda passiva perfeita. Mas é justamente aí que mora o perigo.
O dividend yield relaciona os dividendos pagos ao preço da ação. Um indicador elevado pode refletir uma distribuição robusta de lucros, mas também pode ser consequência de uma forte queda no preço do papel.
No primeiro caso, pode ser um excelente sinal. No segundo, pode indicar que o mercado está preocupado com a saúde da empresa.Uma ação que parece barata e paga dividendos elevados pode estar enfrentando queda de lucros, aumento do endividamento ou dificuldades no setor em que atua. Nesses casos, o yield alto não é um prêmio, mas um alerta.Por isso, além do dividend yield, vale analisar a qualidade dos lucros, a geração de caixa e a capacidade da empresa de sustentar suas distribuições ao longo do tempo.
A grande vantagem dos dividendos está na sua consistência. Empresas lucrativas, com caixa saudável e histórico sólido de distribuição podem contribuir para a construção de renda ao longo dos anos. Já perseguir apenas os maiores yields pode levar o investidor a cair em armadilhas.
Na renda fixa existe um equivalente aos dividendos muito elevados: os títulos de alto risco de crédito, conhecidos como high yield. São emissões que precisam oferecer juros acima da média para atrair investidores. O retorno potencial é maior, mas o risco também.
Mais uma vez, o mercado segue a mesma lógica do empréstimo entre amigos: quanto maior a dúvida sobre a capacidade de pagamento, maior o retorno exigido por quem empresta.Retorno alto raramente é mágica. Na maioria das vezes, é a remuneração por um risco maior, esteja ele evidente ou escondido.
Antes de investir em uma ação com dividendos muito elevados ou em um título que promete retornos muito acima da média, faça a mesma pergunta do início: Estou emprestando para o amigo estável ou para o desempregado? A resposta muda tudo.
É justamente aqui que o planejamento financeiro faz diferença. Mais importante do que perseguir os maiores retornos é entender seu perfil de risco, seus objetivos e o papel de cada ativo na carteira. Um planejador financeiro certificado CFP®, é qualificado para enxergar riscos que muitas vezes ficam escondidos por trás de números aparentemente atrativos.
No fim, quem não enxerga o risco costuma ser quem acaba pagando por ele.
Renato Sartori Duran é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.
E-mail: renato.duran@santander.com.br
As respostas refletem as opiniões do autor e não do jornal Valor Econômico ou da Planejar. O jornal e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para: consultoriofinanceiro@planejar.org.brConfira a publicação original do artigo: Valor Econômico

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