Como usar crédito estruturado na alocação?

19 de jan. de 2026

Thiago Sampaio, CFP®, responde:

De que forma os family offices estão utilizando crédito estruturado para otimizar suas alocações?

Desde 2015, o ambiente se tornou cada vez mais favorável ao avanço do crédito estruturado no Brasil. A combinação de ajustes fiscais, novas referências de custo de capital e maior seletividade nas linhas subsidiadas levou as empresas a buscar alternativas de financiamento mais flexíveis e adequadas às suas necessidades. Esse movimento impulsionou instrumentos como FIDCs, CRIs, CRAs e debêntures incentivadas, consolidando o mercado de capitais como peça central do desenvolvimento econômico. Além de ampliar a oferta de crédito, essa evolução democratizou o acesso de companhias de diferentes portes às fontes privadas de financiamento. Para os family offices, essa expansão representou uma oportunidade estratégica: diversificação do portfólio, ganhos de eficiência tributária e patrimonial e possibilidade de maiores retornos com otimização de riscos.

É fundamental manter um processo definido para a alocação em crédito estruturado no portfólio dos clientes, alinhado à filosofia de investimentos do family office e ao contexto específico de cada investidor.

Em primeira instância, é necessário considerar o perfil de risco do investidor para dimensionar quanto (em percentual) esse tipo de ativo deve representar em relação ao portfólio total. Além disso, é preciso avaliar se há capacidade financeira para investir nesse tipo de ativo. Nessa etapa, a avaliação baseia-se no planejamento financeiro e patrimonial, com o objetivo de identificar a composição da estrutura de ativos do cliente, analisar sua liquidez geral e suas demandas futuras de fluxo de caixa. Ou seja, o cliente pode ter perfil compatível, mas dispor de capacidade reduzida de alocação caso possua alta demanda de recursos no curto prazo ou uma composição patrimonial mais ilíquida. É necessário ponderar essas duas vertentes — perfil e capacidade — para definir a adequação correta dentro do portfólio.

Uma vez definida a macroalocação, é necessário estabelecer outros parâmetros de mitigação de risco. O primeiro refere-se ao limite de exposição por emissor. Por exemplo, a participação máxima pode variar entre 1% e 2%, a depender da avaliação de risco da operação pelo comitê de investimentos. Também é essencial construir uma diversificação consistente, considerando o aspecto geográfico, o tipo de operação (imobiliário, agronegócio, infraestrutura etc.) e os subtipos — como, no setor imobiliário, a exposição a empreendimentos residenciais, comerciais ou logísticos, entre outras subclasses.

Muitas vezes, os family offices assumem o papel de coestruturadores das operações em que irão investir. Essa participação ativa permite ajustar garantias, prazos, gatilhos de pagamento e níveis de subordinação de acordo com as necessidades dos clientes alocadores. Na prática, essa atuação amplia o nível de personalização do portfólio das famílias e possibilita acesso a investimentos que dificilmente chegam às plataformas tradicionais de distribuição.

Outro movimento relevante é a criação de FIDCs proprietários, desenhados a partir do planejamento patrimonial e empresarial dos clientes. Essas estruturas permitem organizar recebíveis, separar riscos, reduzir o custo de capital e, simultaneamente, criar um veículo de investimento alinhado à estratégia de longo prazo da família. Nesse contexto, o crédito estruturado deixa de ser apenas um investimento e se torna uma ferramenta de arquitetura patrimonial, contribuindo para o planejamento e a perpetuação do patrimônio.

Em síntese, a utilização do crédito estruturado na alocação do cliente atua de forma integrada ao planejamento financeiro pessoal e familiar. Quando empregado de maneira estratégica, com governança e gestão de risco adequadas, constitui um instrumento poderoso — e que não deve faltar na construção de portfólios de longo prazo.

Thiago Sampaio é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejamento Financeiro. E-mail: thiago@bwmfo.com.br

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Confira a publicação original do artigo: Valor Econômico