
Como entrar ou sair de um investimento na hora certa?
8 de jun. de 2026
Sara Chiarapa, CFP®, responde:
O erro mais caro e comum que investidores cometem ao tentar prever o mercado é o chamado market timing: a tentativa de adivinhar o momento exato de entrar ou sair dos investimentos.
Na teoria, é simples: comprar na baixa e vender no topo. Mas a tentativa de “bater o mercado” costuma produzir exatamente o efeito contrário. O investidor despreparado e sem perfil para tomar risco vende durante momentos de medo e compra durante períodos de euforia. E isso não é apenas uma percepção do mercado financeiro: há estudos que demonstram esse fenômeno há décadas.
Nos Estados Unidos, o estudo Quantitative Analysis of Investor Behavior (QAIB), produzido anualmente pela americana DALBAR desde 1994, analisa fluxos de aplicações e resgates da indústria de fundos para medir o impacto do comportamento humano sobre a rentabilidade dos investimentos. A edição de 2025, com dados referentes ao comportamento dos investidores em 2024, mostrou que, enquanto o índice S&P 500 apresentou retorno aproximado de 25,02% no período, o investidor médio em fundos de ações capturou cerca de 16,54%. E não foi erro de estratégia do gestor: o problema foi comportamental.
Segundo a metodologia da DALBAR, investidores tendem a aumentar a exposição após períodos de alta e reduzir posições durante momentos de volatilidade e estresse, exatamente o oposto do que favorece resultados consistentes no longo prazo.
No Brasil, o número de investidores como pessoa física na Bolsa de Valores saiu de aproximadamente 600 mil, em 2017, para mais de 5 milhões atualmente. Vivemos uma democratização do acesso aos investimentos. Porém, entrar no mercado é diferente de estar preparado para permanecer nele.
O Relatório de Cidadania Financeira 2025, divulgado pelo Banco Central do Brasil, reforça essa preocupação. O documento mostra que o acesso ao sistema financeiro cresceu de forma acelerada nos últimos anos, mas que a saúde financeira da população — medida pelo Índice de Saúde Financeira do Brasileiro (I-SFB), desenvolvido em parceria entre BACEN e FEBRABAN — ainda apresenta fragilidades. Em 2024, o índice registrou média de 56,7 pontos em uma escala de 0 a 100, faixa classificada como “baixa” ou “ok”.
Isso significa que o acesso aos produtos financeiros cresceu mais rápido do que a preparação emocional e financeira da população para lidar com risco, volatilidade e decisões patrimoniais de longo prazo.
O próprio Banco Central também destaca a relevância da pesquisa “Raio X do Investidor Brasileiro”, realizada anualmente pela ANBIMA em parceria com o Datafolha desde 2017, que mostra que muitos investidores ainda tomam decisões influenciadas por rentabilidade passada, redes sociais e movimentos de curto prazo.
É justamente nesse ambiente que alguns vieses comportamentais ganham força. Os mais comuns são: o excesso de confiança, o efeito manada, a aversão à perda e o chamado “viés de ação”, quando surge a necessidade de “fazer alguma coisa” em momentos de volatilidade.
Na prática, vemos isso quando o investidor vende ativos durante crises por medo, aumenta excessivamente o risco após ciclos de alta ou tenta prever movimentos de curto prazo com base em notícias e oscilações recentes.
Por isso, o papel do planejador financeiro certificado CFP® não é prever o futuro, mas ajudar investidores a construir estratégias coerentes com objetivos, perfil de risco, liquidez e horizonte de longo prazo.
No fim, o caminho mais inteligente para investidores continua sendo a consistência. Diversificar, fazer aportes recorrentes e realizar revisões periódicas tendem a reduzir o impacto emocional sobre as decisões financeiras.
A pergunta correta para o investidor de sucesso não é “para onde o mercado vai amanhã?”, mas sim: “Será que eu tenho a tolerância e a estratégia certa para aguentar o caminho até o destino?”
Sara Chiarapa, é planejadora financeira pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.
E-mail: sara.chiarapa@mzmwealth.com
As respostas refletem as opiniões do autor e não do jornal Valor Econômico ou da Planejar. O jornal e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para: consultoriofinanceiro@planejar.org.br
Confira a publicação original do artigo: Valor Econômico

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