Sucessão patrimonial garante as próximas gerações?

5 de out. de 2026

Sara Chiarapa, CFP®, responde:

Estamos vivendo um dos maiores movimentos de transferência patrimonial da história moderna. Segundo a Cerulli Associates, aproximadamente US$ 124 trilhões deverão ser transferidos nos Estados Unidos até 2048. Já o Global Wealth Report 2025, do UBS, estima mais de US$ 83 trilhões em transferências de riqueza no mundo nas próximas duas décadas.Os números ajudam a dimensionar o fenômeno, mas existe outra questão importante: quem receberá esse patrimônio está sendo preparado para administrá-lo?

Organizar a sucessão é uma etapa importante do planejamento patrimonial, mas não significa necessariamente preparar os sucessores. Testamentos, doações, seguros, previdência e estruturas societárias podem ser utilizados, de acordo com cada situação, para organizar a transmissão dos bens. A continuidade do patrimônio, porém, também depende de conhecimento financeiro, acesso às informações e compreensão dos objetivos construídos pela família.

Um exemplo ajuda a entender essa diferença. Imagine uma família que acumulou, durante 30 anos, imóveis, participações em empresas e investimentos financeiros. Os filhos sabem que existe um patrimônio relevante, mas nunca participaram das conversas sobre sua administração. Não conhecem a composição dos investimentos, as fontes de renda, os custos dos imóveis ou os motivos que levaram a determinadas decisões. Quando precisarem assumir a gestão desses recursos, terão que compreender toda essa estrutura durante o processo sucessório.

É nesse ponto que planejamento sucessório e planejamento financeiro se complementam.Preparar sucessores não significa apenas revelar quanto a família possui. O processo pode começar pela educação financeira e evoluir gradualmente. Filhos adultos podem conhecer a estrutura patrimonial, entender conceitos como liquidez, risco e diversificação, além de acompanhar algumas decisões financeiras da família. Posteriormente, podem participar de conversas sobre investimentos, imóveis, empresas, aposentadoria e objetivos de longo prazo.

Essa preparação encontra respaldo nas iniciativas de educação financeira desenvolvidas no Brasil. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) estabelece, em sua Política de Educação Financeira, a importância da formação de investidores capazes de tomar decisões financeiras conscientes e bem informadas. Em parceria com a Planejar, a CVM também publicou a segunda edição do Livro TOP – Planejamento Financeiro Pessoal, que aborda o planejamento financeiro como um processo estruturado para auxiliar pessoas e famílias a administrar recursos e alcançar objetivos de curto, médio e longo prazo.

A comunicação entre gerações também faz parte desse processo. Pesquisa divulgada pela Cerulli em 2024 mostrou que 89% das empresas de gestão de patrimônio consultadas consideravam reuniões familiares e comunicação regular entre os membros da família uma prática importante diante da transferência de riqueza entre gerações.

No Brasil, o tema tende a ganhar relevância diante das mudanças demográficas. As Projeções da População do IBGE indicam um envelhecimento progressivo da população brasileira nas próximas décadas. Esse cenário amplia a importância de discussões sobre longevidade, organização patrimonial e sucessão dentro do planejamento financeiro das famílias.

Por isso, podemos separar o processo em duas perguntas. A primeira é: como os bens serão transmitidos? A segunda é: quem receberá esses bens possui conhecimento e informações suficientes para administrá-los?

As respostas envolvem diferentes áreas. Questões jurídicas, contábeis e tributárias devem ser tratadas pelos respectivos profissionais. Já o planejador financeiro pode contribuir para integrar objetivos, patrimônio, fluxo financeiro, investimentos, aposentadoria, proteção e sucessão dentro de uma visão mais ampla da vida financeira familiar.

O planejador financeiro certificado CFP®, pode ainda apoiar a organização dessas informações e ajudar a família a transformar objetivos de longo prazo em um planejamento estruturado. Isso permite que a discussão sobre sucessão deixe de acontecer somente no momento da transmissão dos bens e passe a fazer parte da educação e da organização financeira familiar.

Planejar uma sucessão, portanto, não envolve apenas decidir como o patrimônio será transferido. Também significa criar condições para que os futuros responsáveis compreendam o que estão recebendo, quais responsabilidades acompanham esses recursos e quais objetivos foram estabelecidos para eles.

A transferência patrimonial acontece em determinado momento. A transferência de conhecimento pode começar muito antes.

Sara Chiarapa é planejadora financeira pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.
E-mail: sara.chiarapa@mzmwealth.com

As respostas refletem as opiniões do autor e não do jornal Valor Econômico ou da Planejar. O jornal e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para: consultoriofinanceiro@planejar.org.br

Confira a publicação original do artigo: Valor Econômico