Como o hábito de parcelar compras afeta a capacidade de aprovação de crédito no futuro?

19 de ago. de 2026

Paulo Luives, CFP®, responde:

Parcelar virou algo tão natural no nosso dia a dia que quase nunca paramos para pensar no que isso representa. E é simples: toda vez que dividimos uma compra em várias vezes, comprometemos um pedaço da nossa renda futura com um pagamento que já ficou combinado. Uma parcela sozinha não faz diferença. O problema é que, quando parcelar deixa de ser exceção e vira hábito, essas parcelas vão se somando, uma em cima da outra, e o peso disso aparece lá na frente.

Para entender por que isso mexe com o crédito, vale conhecer um número bem simples, que é o comprometimento de renda. Ele é a parte do que ganhamos por mês que já está reservada para pagar dívidas. Pense em alguém que recebe R$ 5.000 e paga R$ 2.000 entre cartão, parcelas e financiamentos: essa pessoa tem 40% da renda comprometida. E é exatamente esse número que o banco costuma olhar antes de liberar um novo crédito.

O raciocínio de quem empresta é bem direto: quanto da sua renda ainda sobra livre para dar conta de uma dívida nova? Quanto mais parcelas em aberto, menor fica essa folga. Ou seja, dá para ter uma renda boa, viver bem, e mesmo assim ser visto como alguém "sem margem" na hora de pedir um empréstimo. Aí o resultado costuma ser o mesmo: menos crédito do que se esperava, ou juros mais altos. E vale lembrar que a parcela acompanha a gente até o fim, afinal, uma compra em doze vezes fica pesando no orçamento por um ano inteiro.

Vale também separar duas palavras que se confundem: endividamento e inadimplência. Estar endividado é ter contas a pagar, o que é normal e faz parte da vida de quase todo mundo. Já a inadimplência acontece quando essas contas deixam de ser pagas no prazo. E é o parcelamento sem controle que aumenta o risco de escorregarmos de uma para a outra, porque basta um imprevisto, como uma emergência ou a perda do emprego, para que aquelas parcelas acumuladas virem uma conta que não fecha.

E tem um detalhe que muita gente esquece: tudo isso fica registrado. Aqui no Brasil, o Cadastro Positivo (previsto na Lei 12.414/2011 e ampliado pela Lei Complementar 166/2019) reúne o histórico de pagamentos de cada pessoa e transforma isso em uma nota, o famoso score de crédito. Quando pagamos em dia, ela sobe; quando atrasamos, ela cai. Além disso, o Banco Central mantém o SCR, o Sistema de Informações de Créditos, que registra as operações de crédito de cada um dentro do sistema financeiro. Resumindo, a forma como lidamos com as parcelas hoje deixa um rastro que aparece amanhã.

Imagine duas pessoas com a mesma renda. A primeira mantém poucas parcelas e paga tudo certinho. A segunda parcela em todo lugar, sempre no limite do orçamento. Quando as duas forem buscar um financiamento maior lá na frente, a primeira tende a conseguir aprovação com mais facilidade e juros menores, enquanto a segunda pode ouvir um "não", ou um "sim" em condições bem piores. E isso não tem a ver com má-fé, é só uma questão de a margem dela já estar comprometida.

É bem aqui que o planejamento financeiro faz diferença. Planejar, no fundo, é organizar o que entra e o que sai de forma que o parcelamento seja uma escolha consciente, e não um jeito de gastar mais do que se ganha. Uma prática simples já ajuda bastante: antes de assumir uma parcela nova, some as que já existem e veja se o comprometimento de renda continua num patamar saudável.

É nesse ponto que o trabalho de um planejador financeiro certificado costuma ajudar, seja para organizar o orçamento, dimensionar o uso do crédito ou proteger a saúde financeira. No fim das contas, a ideia não é fugir do parcelamento, e sim usá-lo com equilíbrio, para que a porta do crédito continue aberta justamente quando ela mais importar, como na hora de comprar um imóvel.

Paulo Luives é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.
E-mail: pauloluives01@gmail.com

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