Quando devo sair dos investimentos de baixo risco?

 

Ramiro Gomes, CFP®, Responde:

Atualmente, muitas pessoas ainda encaram as decisões de investimentos de “baixo risco” de forma incorreta. Elas enxergam, nesse tipo de investimento (caracterizado por ativos como Tesouro Selic, CDB com liquidez diária e rentabilidade que orbita em torno de 100% do CDI, fundos DI etc.), uma opção de ter, ao mesmo tempo, baixo risco, liquidez diária (ou seja, facilidade de resgate) e boa rentabilidade. Os dois primeiros pontos estão corretos. Mas o terceiro, não.

Acreditar que investimentos de baixo risco oferecem boa rentabilidade, sobretudo no longo prazo, nada mais é do que um “vício” adquirido pelo investidor brasileiro. Essa é uma herança direta do ambiente de investimentos no Brasil das últimas décadas. Afinal, para conter a inflação e fazer a nossa moeda não perder drasticamente o poder de compra, o Banco Central manteve a taxa básica de juros – a taxa Selic, que é o referencial de rentabilidade de ativos de baixo risco – num patamar bastante elevado desde meados dos anos 90.

Analisando o período de janeiro de 2002 até aqui, o retorno médio anual da taxa Selic, medido pelo índice IMA-S, foi de 11,96% ao ano. Livre da inflação, isso garantia ao investidor um ganho na casa dos 5,67% ao ano. Descontando, além da inflação, custos inerentes a todos os investidores, como o imposto de renda, ainda assim sobrava 3,92% ao ano. Ou seja: na média, o investidor que manteve ativos de baixo risco na sua carteira teve um desempenho extremamente elevado para a natureza dos ativos investidos. Afinal, ele “surfou” duas ondas que raramente são surfadas em conjunto: manteve baixo risco e alta rentabilidade.

Essa dinâmica vem mudando nos últimos anos. Mudando tanto que, atualmente, o retorno real de ativos de baixo risco dos últimos 12 meses está beirando o negativo. Ou seja: os investidores, ao investirem dessa forma, não apenas estão ganhando pouco, mas também, descontando a inflação, estão perdendo dinheiro. E isso faz com que muitas pessoas repensem a forma de investir.

Voltando ao cerne da questão: afinal, quando vale a pena investir em produtos com baixo risco? A resposta não é exata, tampouco universal. Afinal, tomar essa decisão depende de vários fatores únicos de cada pessoa. Aqui, vou destacar os dois principais.

O primeiro deles é o horizonte temporal dos seus objetivos financeiros. Apesar de não oferecerem uma boa rentabilidade acima da inflação, investimentos de baixo risco conferem, como o nome já diz, riscos baixos. E por riscos baixos me refiro especialmente ao risco de mercado, que é o risco de seu investimento se desvalorizar bruscamente com o passar do tempo. Embora até mesmo ativos como o Tesouro Selic estejam sujeitos a períodos de rentabilidade negativa, estes são extremamente raros. Por isso, eles são os mais adequados para você investir montantes que pretende resgatar em prazos curtos, que vão de poucos dias a até 1 ano. Não há nada melhor do que ativos com essas características para tais prazos. Então, todo e qualquer investimento cujo objetivo é proporcionar uso no curto prazo (como, por exemplo, o valor poupado para fazer uma viagem ou o valor que compõe a sua reserva de emergência) estará muito bem alocado em ativos de baixo risco.

O segundo fator a ser analisado é a sua tolerância ao risco. Tolerância ao risco é o quanto de risco você aguenta e está disposto a correr para seus investimentos de prazos maiores. Um investidor intolerante ao risco é, por definição, um investidor que não tolera ver sua carteira se desvalorizar, nem que seja um pouco. Mas sua tolerância ao risco não é um fator binário, do tipo “sou tolerante” ou “não sou tolerante”. Existem diferentes graus (pense como se fosse um termômetro) e, quanto mais tolerante você é, menor é o espaço para ativos de menor risco para investimentos de longo prazo.

Em resumo: para seus objetivos de curto prazo, ainda é – e sempre será – bom investir em ativos de baixo risco. Para objetivos com prazo maior, quanto investir em ativos de baixo risco vai depender, diretamente, da sua tolerância ao risco e da sua disposição em aceitar ver seu patrimônio oscilar mais ao longo dos anos.

Compreendendo melhor a dinâmica de mercado e entendendo o impacto desses dois fatores para a sua tomada de decisões, tenho certeza de que você poderá tomar a melhor decisão possível para a sua situação pessoal.

Ramiro Gomes Ferreira é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: [email protected]

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Texto publicado no site Época Negócios em 16 de fevereiro de 2021.