Agora que há limites para os juros do cheque especial, vale a pena usar essa linha de crédito?

Leandro Aparecido da Silva, CFP®, responde:

Antes de respondermos à pergunta é necessário entendermos o conceito e a definição do cheque especial, assim como seus objetivos. O cheque especial é uma linha de crédito aberta com limites pré-estabelecidos e que pode ser usada de forma automática pelo tomador, de acordo com suas necessidades.

Pela praticidade e simplicidade oferecida, as taxas de juros cobradas por essa modalidade de crédito estão entre os mais elevadas do país, sendo calculadas de acordo com o valor e o prazo de utilização. De acordo com dados divulgados pelo Banco Central do Brasil, a taxa média do cheque especial alcançou até outubro de 2019 305% ao ano, o que equivale a aproximadamente 12% ao mês.

A partir do dia 06 de janeiro de 2020, de acordo com a resolução n° 4.765 do Conselho Monetário Nacional, o cheque especial teve sua taxa de juros limitada a 8% ao mês, com valor anual em torno de 150%. Apesar da redução na taxa de juros, essa modalidade de crédito ainda continua sendo cara, principalmente se comparada a outras opções disponíveis. Sendo assim, antes de utilizá-la é necessário avaliar bem a necessidade e considerar alternativas mais viáveis, para que a dívida não se torne uma dor de cabeça e saia do controle.

Para se ter uma ideia, se considerarmos a utilização do valor de R$ 1.000,00 durante um ano, a uma taxa de 8% ao mês a dívida crescerá para R$ 2.518,17, ou seja, em um ano você pagará R$ 1.518,17 somente de juros. Agora, se considerarmos a utilização desse mesmo valor de R$ 1.000,00 por dois anos, a dívida crescerá para incríveis R$ 6.341,18, ou seja, em dois anos você pagará R$ 5.341,18 somente de juros.

Portanto, antes de recorrer a essa modalidade de crédito é necessário verificar outras alternativas mais viáveis e com um custo menor. Entre as opções disponíveis estão o crédito pessoal e o empréstimo consignado, aquele que é descontado diretamente na folha de pagamento, possuindo taxas de juros bem menores do que o cheque especial. No empréstimo consignado, a média das taxas de juros mensais é de 1,89%, segundo informações do Banco Central. No entanto, para ter acesso ao empréstimo consignado é necessário observar algumas exigências, dentre elas a necessidade de que a empresa na qual a pessoa trabalhe ou órgão público, no caso de servidores públicos, seja conveniada com o banco para possibilitar a obtenção do crédito. Caso não atenda as exigências para conseguir o crédito consignado, a outra opção é buscar uma linha de crédito pessoal  na qual as taxas de juros estão em torno de 4,35% ao mês, ou seja, com um custo menor do que o cheque especial.

Anualmente, enquanto os juros no empréstimo consignado chegam a uma média de 25,19% e no empréstimo pessoal a 66,69%, no cheque especial, mesmo com a redução da taxa, os juros sobem para 151,8%.

Além dos juros ainda elevados, outro ponto a ser observado pelo consumidor é que a mesma resolução do Conselho Monetário Nacional que limita a cobrança da taxa de juros em 8% ao mês quando da utilização do valor disponível, também autoriza os bancos a cobrarem uma tarifa fixa pela disponibilização do cheque especial para clientes que possuam limite superior a R$ 500,00. Essa tarifa pode ser de até 0,25 % do valor do limite que ultrapassar R$ 500,00. Na prática, significa que mesmo que você não utilize o valor que lhe for disponibilizado poderá pagar por ele.  Portanto, com relação à cobrança da nova tarifa, vale a pena pesquisar quais bancos irão cobrá-la e quais não.

Sendo assim, por ter um custo ainda elevado, o uso dessa modalidade de crédito deve ser evitada e, caso haja necessidade de utilização diante de imprevistos que vierem a surgir é preciso ter consciência das altas taxas cobradas, procurando liquidar a dívida o mais rápido possível, antes que ela se torne um grande problema nas finanças.

A dica é adotar o hábito de se planejar financeiramente. Saber quanto você ganha mensalmente e quais são suas despesas é fundamental para se ter um controle financeiro, evitando gastos desnecessários e para que seja possível constituir uma reserva financeira visando a cobertura de imprevistos que possam acontecer. Assim você terá um recurso disponível a ser usado não sendo necessário recorrer ao uso do cheque especial.

Leandro Aparecido da Silva é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. Email: [email protected]

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Texto publicado no site Época Negócios em 17 de março de 2020.