Sou autônoma e não tenho renda fixa, mas estou endividada. O que fazer?

Eu e meu marido somos autônomos. Temos meses bons, mas em outros a demanda por trabalho cai e ficamos endividados. Temos um carro, mas não podemos vendê-lo pois usamos para trabalhar. Temos dívidas do cartão, empréstimo, além de parcelas altas de um conserto do carro. O que fazer?

Bruno Pereira, CFP®, responde:

Prezada leitora, olá!

Primeiramente muito obrigado e parabéns pela sua pergunta, é ainda mais importante o zelo com as finanças pessoais quando não temos entrada de recursos estáveis em nosso orçamento e uma orientação especializada pode lhe oferecer ótimas soluções. A ocupação de autônomo é cada vez mais comum entre os brasileiros e, nós planejadores, nos deparamos com muitos casos como o seu.

Vamos dividir a solução do seu problema em duas partes, começando pelo que julgo ser o mais grave, a dívida do cartão. Essa modalidade de crédito é a mais cara do mercado já que o banco não tem garantia nenhuma de que o tomador, no caso você, vai pagar esse empréstimo, por isso ele cobra muito caro para compensar o risco do calote. O custo desse financiamento pode chegar até 13% ao mês. Mesmo com a recente norma do Banco Central que exige que os bancos entrem em contato depois de 30 dias no rotativo oferecendo uma nova linha mais barata os custos são ainda muito altos.

Mas qual a solução para você? Oferecer ao banco uma garantia para que ele tenha menos risco e te cobre menos juros. Você comentou em sua pergunta que você e seu marido possuem um carro, existe uma modalidade de empréstimo chamada refinanciamento de veículo, através dela você pode levantar aproximadamente 70% do valor do seu automóvel com taxas bem mais baixas que a da dívida do cartão, geralmente a partir de 1,5% ao mês. Com o dinheiro em mãos você tenta renegociar com o banco, assim você troca uma dívida cara por uma mais barata. Os bancos costumam ter interesse em renegociar essas dívidas pois é nessa linha que eles têm os maiores índices de inadimplência. Não é incomum pessoas conseguirem abater a dívida pagando 30% ou 40% do valor devido. Com esse dinheiro aproveite também para tentar um alongamento na dívida do conserto do carro, diminuindo assim a parcela mensal, ou um desconto para pagamento à vista.

Existe a mesma modalidade com garantia de imóvel que pode ser uma solução caso a dívida do cartão seja muito grande e você tenha um imóvel quitado em seu nome. Esse dinheiro deve dar um fôlego ao seu orçamento, contudo ele não é a solução para os seus problemas financeiros, é muito importante você fazer contas com a ajuda de um profissional, já que se não conseguir pagar pode perder o seu carro ou o seu apartamento. Importante ressaltar que em ambas modalidades, crédito com garantia de automóvel e imóvel, apesar de você continuar a usufruir de seus bens eles ficarão alienados ao banco até a quitação total da dívida.

Entretanto, antes de decidir alienar um bem tão importante sugiro a utilização de aplicativos e planilhas financeiras a fim de ter um diagnóstico mais preciso do fluxo financeiro da família.

Vamos agora para a segunda parte, a origem da dívida. Como você comentou, é muito comum aos profissionais autônomos que a receita mensal caia em alguns meses, disso você dificilmente conseguirá fugir, mas um planejamento financeiro bem executado pode lhe permitir um conforto nos meses de “entressafra”. O primeiro passo é fazer uma reserva de segurança para fazer frente às oscilações inerentes ao seu trabalho.

Para um autônomo, uma reserva que corresponda a 12 meses de seu custo fixo mensal deverá ser suficiente. Por exemplo, se você tiver um custo de vida mensal fixo de R$ 5 mil, uma aplicação de R$ 60 mil de baixo risco e com liquidez diária vai te garantir mais tranquilidade nos meses de demanda fraca. Para que essa estratégia funcione, você deverá ter a disciplina para manter sempre no mínimo R$ 60 mil aplicado nessa reserva, complementando com novos aportes nos meses em que seu orçamento tiver entradas maiores. Avaliar a possibilidade de renda extra e eventual diminuição de despesas desnecessárias também pode ajudar na construção dessa reserva.

Não gaste o excedente antes de garantir que sua reserva de segurança esteja completa. Essa estratégia vai te garantir estabilidade financeira e, se implementada com disciplina, à medida que seus investimentos forem crescendo, ela pode te levar de devedora à tão sonhada independência financeira dentro de um planejamento mais completo de longo prazo.

Bruno Pereira é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: [email protected].


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Texto publicado no site Época Negócios em 18 de junho de 2019.