Meus gastos mensais são quase o dobro da minha renda

Meus gastos mensais são quase o dobro do que minha renda. Não estou inadimplente, mas a situação virou uma bola de neve, pois peguei empréstimos atrás de empréstimo para pagar a dívida. Nesta situação, eu consigo que o banco faça um refinanciamento em parcelas menores para caber no meu orçamento?”

Bárbara Souza, CFP®, responde:

Casos como o de nosso leitor são frequentes. Em algum momento, houve um déficit no orçamento, o que levou a pessoa a contrair um empréstimo e sanar, momentaneamente, esse buraco. O que muitos esquecem é que, contratando um empréstimo, você também está assumindo o compromisso de pagar a parcela meses a fio, ou seja: mais um custo mensal. Com este novo custo, um novo buraco surge, que o leva a mais um empréstimo.

Antes de mais nada, é preciso entender o que gerou o primeiro descasamento entre receita e despesa. Caso contrário, o problema persiste e de nada adiantará renegociar com o banco.

De início, elabore um orçamento anual. É importante que seja anual, pois existem receitas e despesas sazonais, e você precisa se planejar para elas.

Liste absolutamente tudo. Desde os gastos rotineiros como aluguel e supermercado, assim como os sazonais, variáveis e de exceção. Estes são os gastos correntes. Relacione também os gastos financeiros: parcelas de empréstimo e juros de cheque especial. Faça também uma reserva em seu orçamento para gastos inesperados (reserva de emergência), pois são eles muitas vezes que fazem surgir o déficit orçamentário.

A recomendação é ser conservador ao montar um orçamento. Seja pessimista. Do lado das receitas, conte com a menor entrada possível e, do lado das despesas, conte com a despesa mais alta possível. Desenhe o pior cenário e prepare-se para atravessá-lo de modo que não precise recorrer a cheque especial ou empréstimos.

Uma vez montado o orçamento, faça ajustes. Um mantra deve ser repetido neste momento: não posso gastar mais do que ganho.

Nosso leitor menciona gastar o dobro do que ganha. Mas de onde vêm esses gastos? Seriam mesmo referentes às parcelas dos empréstimos? Ou ele assumiu mais compromissos financeiros do que poderia arcar, e acabou vendo-se obrigado a contratar os empréstimos? Geralmente, o que acontece é que gasta-se primeiro para pensar em como pagar depois. Este comportamento deve ser mudado. Deve-se gastar conforme temos capacidade de pagamento.

Convém que os gastos correntes não ultrapassem 70% da receita mensal. Uma vez ciente disso, está na hora de olhar novamente para seu orçamento e identificar onde estão os maiores gastos e ajustá-los. Vale lembrar que sempre é possível obter renda extra e ajustar seu orçamento pelo lado da receita.

Cortar gastos não é fácil. Comece separando os gastos correntes em dois grandes grupos: os obrigatórios e os não obrigatórios.

Os gastos não obrigatórios são mais simples de ser controlados. Por não se tratar de itens de primeira necessidade, torna-se fácil abrir mão. Se somente isso não for suficiente para se atingir os 70% ideais, será preciso reavaliar os gastos necessários. Como? São vários os exemplos. Você pode negociar uma conta de celular mais barata, levar almoço de casa para o trabalho… Tudo é válido para encaixar seu volume de despesas na sua receita mensal.

Vale inclusive se desfazer de um bem. Um carro gera custos, por exemplo. Ao vendê-lo, além do dinheiro referente à venda do veículo, você automaticamente deixa de ter todos os custos dele em seu orçamento. Obviamente, continuamos precisando nos locomover. Vale lembrar que gastos com transporte público irão aumentar.

Chegamos ao ponto onde vamos abordar a verdadeira dúvida do leitor. Consigo renegociar minha dívida com o banco?

Ligue para seus credores fazendo duas perguntas: Quanto custaria quitar à vista sua dívida e quais as condições para refinanciar? Para sabermos se estamos trocando uma dívida mais cara por uma mais barata, não basta só olhar para a taxa de juros, pois as parcelas são compostas também por seguros, tarifas, taxas e impostos. Se o valor da parcela de um novo empréstimo no mesmo prazo que falta e no mesmo valor para liquidação for menor que o valor da parcela atual, vale a pena continuar com a negociação. Você pode simular um número maior de parcelas na busca de uma parcela menor e que consuma menos do seu orçamento.

Ponha em prática tudo que você planejou. Será um momento em que você precisará fazer concessões e ser perseverante. Os valores constantes em seu novo orçamento devem ser encarados como compromissos assumidos consigo mesmo. E não hesite em procurar um profissional para auxiliá-lo, se tiver dificuldade.

Bárbara Souza é planejadora financeira pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: [email protected].


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Texto publicado no site Época Negócios em 23 de abril de 2019