Especialistas debatem o que esperar da economia no novo governo brasileiro

Falta de senso de urgência e início de transição “atrapalhada” marcam o momento político brasileiro, de acordo com os especialistas que compõem o primeiro painel do segundo dia do Congresso Planejar 2018: “O que esperar da economia no novo governo?”.

“Uma campanha desinformada está resultando num começo preocupante pelo amadorismo”, declara Marcos Lisboa, diretor presidente do Insper. Para ele, levando-se em consideração o desempenho econômico do país nos últimos anos, com crescimento menor do que boa parte dos países emergentes e do restante da América Latina, “era de se esperar que tivéssemos a esta altura mais clareza sobre a agenda”.

Para Claudio Ferraz, responsável pela análise do cenário macroeconômico e político brasileiro no BTG Pactual Digital, um dos principais problemas é a morosidade na implementação de medidas. “É surpreendente para nossos padrões históricos que estejamos discutindo assuntos como a reforma da previdência em um momento de fim de governo, em que normalmente nada acontece. Mas precisamos de muito mais do que isso.”

Outra grande preocupação, destaca Ferraz, é a complacência que pode ser gerada pela situação econômica. “Não é um legado dramático para um ano complicado como este. A economia está quase pronta para voltar a crescer, então há o risco de isso não gerar uma pressão forte o suficiente para mudanças rápidas”, diz.

Essa expectativa de melhora da economia, para Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, é extremamente frágil, baseada majoritariamente na crença em mudanças no sistema de previdência que, segundo a especialista, não há certeza se acontecerá em um curto período. “Ainda estamos muito vulneráveis a choques. Crescer pouco dá trabalho. A sociedade está esperando mudanças, mas sabemos que elas serão lentas e não temos certeza ainda sobre como ocorrerão.”

O envelhecimento acelerado da população, ponto intrinsecamente relacionado à questão da previdência, é apontado por Marcos Lisboa como fator que intensifica a urgência do tratamento da reforma. “O Brasil está envelhecendo muito mais rápido do que a maior parte dos países do mundo. A população de idosos já cresce mais do que os adultos, e estamos próximos de menos de dois trabalhadores ativos por aposentado.”

Claudio Ferraz aponta ainda que o envelhecimento da população tornará mais desafiador o crescimento do país, que deverá ocorrer por aumento de produtividade, não por “força bruta”, com o aumento do número de trabalhadores. “O país já gasta 50% de seu orçamento público com previdência. É por isso que caem viadutos, que queimam museus. Não sobra recursos para o resto”, afirma.

Para ele, esse não vai ser um assunto que cai no esquecimento após algum tempo, mas a preocupação é como os governantes lidarão com ele. “Há o risco de nos acomodarmos com uma versão muito leve de como adereçar o problema. E se tivermos que tentar de novo resolver o problema mais para frente, vai ser mais complicado do que já está.”

Apesar de considerar ainda muito baixa a visibilidade do quadro político, Zeina ressalta que o time econômico do governo deverá estabelecer prioridades. Ela espera, também, uma melhor sintonia entre o presidente eleito e seu “núcleo duro” da política, para que ele não tenha que seguir “aparando arestas sozinho”.

“O Brasil de hoje não é o de 2002. Não vai mais bastar apenas não fazer a coisa errada. Temos que fazer a coisa certa. Nosso ambiente é de urgência de entregar uma agenda difícil”, conclui Claudio Ferraz. Para Zeina, tais mudanças são essenciais também para que o Brasil volte a ocupar posição de relevância entre grandes investidores internacionais.