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Usei meu FGTS para abrir uma empresa, mas ainda não consegui estabilizar meu negócio e estou endividada. O que fazer?

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Abri meu próprio negócio no ano passado e para isso abri mão de meu emprego anterior. Com o dinheiro do FGTS investi nos maquinários que seriam necessários para iniciar meus negócios. Ainda não consegui me estabilizar financeiramente, tenho um companheiro que me ajuda nas despesas, mas ele não consegue mais manter as contas em dia. Estourei o limite do cheque especial, minhas faturas de cartão de crédito estão atrasadas e não consigo fazer um empréstimo. O que posso fazer para sair dessa?

Enio Secchi, CFP®, responde:

Prezado leitor,

Vamos dividir a questão em duas partes, sendo que a segunda parte será o foco de nossa resposta, objeto de estudo do Planejamento Financeiro Pessoal, além de ser a questão mais urgente em sua pergunta. Nas primeiras duas primeiras frases de sua questão, fica claro que iniciou um empreendimento empresarial, envolvendo a aquisição de maquinário com recursos próprios (saldo do FGTS) e cujo fluxo de caixa do próprio negócio ainda não está sendo suficiente para custear as despesas, entre elas, a sua retirada mensal (Pró Labore). Pode ser o sinal de que não houve em seu planejamento inicial a preocupação adequada ou suficiente com o Capital de Giro do negócio, dedicando todo o capital inicial para o investimento em maquinário.

No Plano de Negócios de um novo empreendimento, a projeção de fluxo de caixa tenta prever em quanto tempo o investimento inicial será retornado (Payback), além de estimar quanto capital de giro será necessário para suportar a atividade até o negócio começar a gerar lucro e se retroalimentar. É também no momento da elaboração de um bom Plano de Negócios (Business Plan) que se deve considerar os cenários alternativos (mais otimistas e mais pessimistas, como as crises econômicas) ou, até mesmo, situações imprevistas, como uma eventual ruptura de sociedade, para que a empresa possa sobreviver em sua fase inicial e se sustentar durante seu ciclo de crescimento. Sem conhecer os detalhes da sua atividade e os números iniciais do negócio, o diagnóstico da causa fica, no mínimo, prejudicado.

No entanto, são as duas próximas frases do seu questionamento que são mais preocupantes pois, mesmo contando parcialmente com a ajuda de um companheiro nas despesas pessoais, você nos conta que fez uso de linhas bancárias para o custeio de seu orçamento familiar. E não pense que não devemos utilizar recursos de terceiros, vez ou outra, para realizarmos um sonho, como a aquisição de um carro ou casa, ou para eventuais coberturas de situações emergenciais. Com um bom planejamento financeiro pessoal, podemos usar as linhas de crédito dos bancos como aliados para estes objetivos.

Neste tocante, parece que você não escolheu as linhas de crédito mais apropriadas para financiar esta fase de fluxo de caixa baixo ou negativo. Você mencionou a utilização do cheque especial e de cartões de crédito, ambas linhas de crédito rotativo, ou seja, as mais caras em termos de taxa de juros nas instituições financeiras. Apesar da facilidade de acesso destas linhas, devemos evitar a sua tomada, principalmente por longos períodos. E como você está com estas operações em atraso, provavelmente seu limite de crédito já foi ou será cortado nas instituições credoras e seu nome poderá ser negativado junto ao aos Serviços de Proteção de Crédito.

Isto posto, vamos às recomendações:

Em primeiríssimo lugar, estanque a “bola de neve” do cheque especial e do cartão de crédito! Como fazer isso se estou negativado? Ora, os bancos não emprestam dinheiro novo para quem está em atraso, mas renegociam as dívidas na intenção de recebê-las. Portanto, proponha que somem todas as dívidas e as transformem em uma única linha de crédito fixo, ou seja, com uma parcela fixa, mensal e sucessiva que caiba no orçamento atual. Os bancos e as administradoras de cartão de crédito possuem linhas para estas situações, geralmente com taxas de juros bem menores que as do crédito rotativo. Caso a dívida seja em mais de uma instituição, faça uma negociação em cada uma delas, pois se seu nome estiver negativado, dificilmente alguma instituição aceitará “comprar” a dívida das demais.

A segunda recomendação é a confecção de um orçamento. Coloque todas as suas despesas e receitas em uma planilha, um app ou mesmo um caderno, mês a mês. A maioria das pessoas subestima a importância de se fazer um orçamento ou pensa que tem tudo na cabeça. Não caia nessa! Escreva! Você vai se surpreender como o cérebro humano se apropria melhor da informação quando esta é escrita e ainda nos ajuda a criar melhor as soluções para cada situação.

Por fim, você nos diz que seu companheiro já não consegue mais manter as contas em dia. É importante dividir toda esta informação com o seu companheiro, inclusive o orçamento pessoal e as negociações com os credores. Dificuldades financeiras podem comprometer o relacionamento de um casal ou até mesmo culminar no fim de um casamento. Por outro lado, também podem fortalecer a relação, unindo o casal em torno do problema, fazendo com que se discuta de forma aberta e transparente a estratégia, expondo as forças e fraquezas de cada um e criando a solução em conjunto, valorizando cada contribuição para a estabilização da situação financeira.

E lembre-se: as ferramentas que te ajudam a sair de um problema financeiro são as mesmas que te ajudam a construir um plano para a aquisição e conquista dos sonhos comuns a todos os casais: Experiências, Patrimônio e Futuro.

Enio Secchi é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. Email: eniosecchi@hotmail.com

As respostas refletem as opiniões do autor, e não do site ÉpocaNegócios.com ou da Planejar. O site e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

Texto publicado no site Época Negócios em 16 de julho de 2019.