Os riscos de uma estratégia concentrada

Invisto mensalmente 100% do meu dinheiro em ações e, em compensação, aplico em renda fixa todo o retorno que tenho com dividendos. Gostaria de uma avaliação: o que estou fazendo é muito arriscado?

José Raymundo de Faria Júnior, CFP®, com a colaboração de Cristiane Benetti:

Caro leitor, nossa avaliação é de que esta estratégia é muito arriscada e pouco diversificada. Demonstrando:

1) Aplicação em um fundo ETF que siga o Idiv (índice de dividendos da Bovespa). O retorno líquido médio nos últimos três anos foi de 10,5% ao ano (o retorno médio do Ibovespa ficou em -5,3% ao ano no período);

2) Retorno do Idiv permanecendo constante nos próximos anos;

3) Dividendos pagos em torno de 6% ao ano;

4) Inflação de 4,5% ao ano (meta do Banco Central);

5) Aplicação dos dividendos em NTN-Bs (títulos atrelados à inflação, negociados no Tesouro Direto) com rendimento real (acima da inflação) de 3% ao ano;

6) Aportes mensais e com valores constantes;

7) Cálculos realizados considerando impostos, custos e inflação: Aplicação anual no Idiv: R$ 200,00; Rendimento anual do Idiv: R$ 10,50; Rendimento real (acima da inflação de 4,5%): R$ 6,00; Valor dos dividendos recebidos: R$ 6,00; Aplicação dos dividendos em NTN-Bs: R$ 6,00; Rendimento real do Idiv após retirada dos dividendos: R$ 0,00; Rendimento real da aplicação em NTN-Bs: R$ 0,05; Rendimento real (Idiv e renda fixa) no ano: R$ 6,05; Saldo final após um ano: R$ 206,05.

Sugerimos a aplicação em NTN-Bs por dois motivos: preservação dos recursos no longo prazo e risco quase zero. Existe a alternativa de aplicar em títulos isentos de IR, porém é risco privado, algo já assumido na aplicação em ações. Outra sugestão é investir direto em ações, o que pode gerar economia tributária e, assim, aumentar o retorno.

Simulamos a carteira com a sugestão do leitor e observamos que, após 30 anos, esta carteira terá 50% em ações e 50% em renda fixa; e após 55 anos terá 30% em ações e 70% em renda fixa. A reaplicação dos dividendos em renda fixa é interessante, já que reduz de forma quase uniforme o percentual aplicado em ações, algo saudável à medida que envelhecemos e necessitamos de maior estabilidade no portfólio.

Porém, destacamos quatro fatores de risco na estratégia proposta pelo leitor: 

1) no caso de uma crise (comum a cada década), os preços das ações caem. Logo, é preciso estar preparado para enfrentar perdas. 

2) a taxa de juro real Brasil está caindo, fato que provoca queda nos fundos em que são aplicados os dividendos e no retorno real das NTN-Bs. 

3) muitas ações de dividendos estão ligadas a concessões públicas e, desde o edital da rodovia Fernão Dias (2007), o governo vem reduzindo a taxa de retorno das concessões, o que em última instância diminui os proventos das empresas. 

4) a taxa da inflação, que pode ficar acima da meta.

É preciso analisar a alocação do portfólio mediante a idade, perfil de risco, prazo e objetivo do investimento. Estes dados não foram fornecidos, mas sua estratégia é agressiva, concentrada e não recomendada para investidores menos avessos ao risco ou próximos da aposentadoria. Nossa sugestão é aumentar a diversificação, analisando a inclusão de outras classes de ativos, como aplicações isentas de IR (títulos do agronegócio e imobiliários e fundos de investimento imobiliário); portfólios multimercados (que podem direcionar 20% das aplicações em ativos no exterior); CDBs; e Letras Financeiras do Tesouro (LFTs, com retorno igual à Selic).

Porém, primeiro é preciso formar reserva financeira que garanta os recursos mínimos necessários para período de ausência de renda entre 6 e 12 meses. Esta reserva deverá ser feita com ativos líquidos e de baixo risco, como LFTs e ativos cobertos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), como a poupança e CDBs.

José Raymundo de Faria Júnior é Planejador Financeiro Pessoal e possui a Certificação CFP (Certified Financial Planner) concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: [email protected]

As respostas refletem as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico ou da Planejar. O jornal e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para: [email protected]