O cenário e a alocação por classes de ativos

Eu tenho tentado seguir as tendências de mercado, mas parece que sempre chego atrasado. Como posso melhorar minha escolha para os investimentos? Existe uma forma de me antecipar ao mercado?

Gisele Andrade, CFP:

Caro leitor, se alguém afirmar que existe essa forma de se antecipar ao mercado… esta pessoa não te dirá a receita! Brincadeiras a parte, o mundo das finanças vem estudando há décadas o comportamento do mercado face aos cenários de longo prazo e notícias que impactam o curto prazo.

Em última instância, o “mercado” é a soma das decisões individuais dos agentes, como eu e você, por exemplo. Nesse jogo de forças, principalmente em momentos de crises agudas, a aversão ao risco (ou simplesmente o medo de perder dinheiro) faz com que a maioria dos investidores procure alternativas seguras. E outros vão buscar, neste momento, o retorno de grandes apostas que o cenário se reverta. Estes comportamentos criam as ondas ou tendências de mercado.

Então, pelo que vimos, na prática não é possível antecipar esses movimentos com total eficiência. O que dá certo então? Já ouviu falar em “asset allocation” ou alocação por classes de ativos? Esta provavelmente será a melhor opção para você ter disciplina, participar das tendências e ter uma razoável proteção nas crises.

Como isso funciona? Aplicar a velha máxima da diversificação. Mas, neste caso, não estamos falando de diversificar simplesmente instituições, emissores de títulos ou produtos de forma aleatória. O que vale aqui é buscar uma alocação mais estrutural para o longo prazo e criar intervalos de curto prazo, visando aproveitar melhor alguns momentos e proteger-se em outros.

Um exemplo seria montar uma estrutura assim: 10% em inflação, 10% em prefixados, 15% em multimercados, 10% em ações e, dos 55% restantes, alocados em pós-fixados indexados ao Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), direcionar até 25% para crédito privado – metade disso em fundos imobiliários -, deixando 30% em risco soberano. Nesta indicação hipotética, utilizei as classes de ativos que estão disponíveis no Brasil no momento.

Para fazer meu modelo funcionar, crio margens de flutuação, nas quais, em média, terei 10% do portfólio. Posso ir a 15% se estiver otimista com aquela classe de ativo, assim como diminuir para 5% se achar que o momento não é bom. Dessa forma, sempre terei como aproveitar as oportunidades do mercado e a disciplina para manter o “sangue frio” nos momentos de crise.

Nos mercados desenvolvidos, há bastante tempo esses modelos são utilizados pelos principais gestores. No Brasil, porém, como o desafio de retorno dos investimentos financeiros é recente (as taxas de juros até então não exigiam esforço dos aplicadores), existe ainda pouca discussão sobre “asset allocation”.

Vale lembrar que para cada necessidade e perfil há uma proposta adequada. E que este modelo é um ponto de partida, permitindo ao investidor utilizar produtos variados, incluindo desde CDBs (Certificados de Depósitos Bancários) e LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio) até fundos de participação e investimento no exterior, nos casos mais sofisticados.

Espero que você consiga, aos poucos, montar seu modelo e aumentar a participação nas boas ondas do mercado!

Gisele Andrade é Planejadora Financeira Pessoal e possui a Certificação CFP (Certified Financial Planner) concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: [email protected]

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