É hora de rever nossas idiossincrasias

A palavra é rebuscada, mas de significado simples e direto. Quer dizer: maneira de ver, sentir, reagir, própria de cada indivíduo. Em tempos de juros baixos é preciso rever nossas idiossincrasias ao nos depararmos com um novo espectro de produtos de investimentos mais complexo e arriscado e que nos ejetará da zona de conforto com a contrapartida de maior retorno. 

Iniciemos essa reflexão sobre crédito privado, que no mercado brasileiro tem características muito peculiares e que diante do atual cenário certamente serão revisitadas. É inegável a evolução da qualidade da gestão das empresas diante do advento do IFRS e da pressão benéfica por transparência e governança. Além das sincronizadas iniciativas para intensificar o secundário e a utilização dos títulos privados como fonte para a infraestrutura. 

No entanto, uma das particularidades mais latentes do mercado é o ato de generalizar e eternizar fracassos. Histórias de default ocasionadas por má gestão, aquisições irresponsáveis e até por descontrolada diversificação, mancharam a reputação de algumas empresas, aumentando o peso do histórico, quando da análise de uma emissão, e o prêmio exigido para emissoras iniciantes. Em tempos de diversificação, um olhar mais crítico sobre perspectivas contribuirá para uma boa escolha de um crédito diferenciado. 

A diversificação pode também ser baseada emriscos setorizados. É crescente a oferta de produtos estruturados dos setores imobiliário e agrícola, principalmente, para pessoas físicas. Mais uma vez, cabe aqui a revisão de nossas reações. 

O setor imobiliário, apesar de seu notório crescimento dos últimos anos, ainda carrega uma carga alta desta idiossincrasia. No entanto, produtos como o Certificado de Recebível Imobiliário e o Fundo de Investimento Imobiliário, dão a possibilidade de investimentos indiretos no setor e com um bom nível de garantias reais. São produtos complexos, mas contam com a isenção tributária sobre os rendimentos auferidos. Outra forma indireta de aplicação no setor é representada pela Letra de Crédito Imobiliário (LCI), que além da isenção tributária conta com a garantia do FGC até o limite estabelecido pela legislação. Na LCI o investidor assume o risco da instituição financeira que a está emitindo.

Para finalizar, ainda falando em reações, emissões do setor agrícola são as campeãs de um sentimento generalizado de recusa. Sentimentos a parte, amarras jurídicas, mínima formalização das relações comerciais, aliadas a um bom seguro de performance ou crédito, podem transformar o setor em mais uma alternativa. É crescente a oferta de Certificado de Recebíveis do Agronegócio, uma forma de investimento direto, sempre acompanhado de um complexo arcabouço de mitigações dos riscos particulares deste setor, e que contam com a isenção tributária para pessoas físicas. Alternativamente,
há as Letras de Crédito do Agronegócio (LCA), títulos emitidos por instituições financeiras que emprestam para o setor e disponibilizam esse crédito como lastro, no entanto não contam com a garantia do FGC. Sem dúvidas é hora de expressar novas reações, acompanhadas de cautela e cuidado, sobre novas alternativas para a obtenção de melhores resultados.

Keite Bianconi, CFP®, é integrante da equipe de Distribuição do Banco ABC Brasil S.A., é planejadora financeira pessoal e possui a Certificação CFP®, concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. 

Este artigo foi publicado originalmente no jornal Brasil Econômico em 06/12/2012. O texto reflete a opinião do autor, e não do Brasil Econômico ou do IBCPF. O jornal e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.