Devo manter parte de herança aplicada em ações?

Recebi uma herança de R$ 500 mil que está 50% aplicada em ações. Devo manter esse investimento?

Roberto C. Agi, CFP®, responde:

A melhor resposta para essa pergunta é: depende. O primeiro ponto é saber qual o destino que imagina para esses recursos. Comprar um apartamento? Fazer uma viagem? Guardar para a aposentadoria?

Antes de mais nada, vale uma rápida reflexão do que significa investir em ações. Muito relacionado a risco alto, o ato de investir em ações significa comprar uma participação em uma empresa e dela se espera receber dividendos ou obter uma valorização no valor pago por ação. O alto risco remete às grandes variações nos preços, tanto para cima quanto para baixo, em um curto espaço de tempo.

Essas variações refletem as mudanças de expectativas dos investidores em relação ao preço justo dessa empresa e à capacidade futura de geração de lucro. Como há uma enormidade de eventos que podem influenciar a geração futura de lucro como eleições, cenário externo, taxas de juros, entre outros, a cada instante essa previsão de resultados é recalculada pelo mercado, impactando diretamente o preço das ações.

Voltando a sua pergunta, gosto de dividir o patrimônio em diferentes caixas, cada qual com sua característica de liquidez e risco. Além de uma reserva para emergências, outra caixa seria para seus projetos pessoais (compra de apartamento, ano sabático, etc.) e uma caixa de aposentadoria ou longevidade, já que o termo aposentadoria está cada vez mais em desuso — de qualquer forma é de onde virá o complemento ou substituição da sua renda no futuro.

Vamos supor que essa herança seja seu único patrimônio financeiro, você decida manter uma reserva de aproximadamente R$ 50 mil (varia de acordo com suas despesas, empregabilidade, etc.) e que pretenda utilizar parte desses recursos para dar uma entrada de R$ 200 mil em um apartamento daqui a um ano. Do total de R$ 500 mil, o que sobra para a “aposentadoria” são R$ 250 mil — se considerarmos que a posição atual em ações é exatamente R$ 250 mil, 100% dessa caixa estaria alocada em renda variável.

Não parece razoável, independentemente de sua idade e tolerância a risco e aqui, cabe uma separação entre capacidade de tomar risco e a própria tolerância a risco. A capacidade de tomar risco significa quanto seria razoável alocar da sua carteira em ativos mais voláteis. Se pretende utilizar todos os recursos em um ano, sua capacidade de tomar riscos não é alta.

Já a tolerância a risco tenta dimensionar quanto seu estômago está preparado para as subidas e descidas do mercado — fazendo uma simulação de uma carteira com 50% em renda fixa (100% do CDI) e 50% em bolsa, nos últimos três anos, essa carteira teria entregue um retorno de aproximadamente 47,5% bruto, enquanto a renda fixa tradicional rendeu 40% bruto no mesmo período. O melhor mês dessa carteira foi uma alta de 8,07% (mais do que um ano de CDI hoje), já o pior mês foi uma queda de 4,13%.

Como você se comportaria diante de uma queda como essa? Claro que a decisão de alocação de sua carteira deve considerar o que vislumbramos daqui para frente, mas olhar para o comportamento histórico é sempre um bom exercício.

Resumindo, antes de decidir se mantém ou desmonta a posição em ações, sugiro avaliar sua situação atual, seus desejos e ambições futuras e como gostaria de ver seu patrimônio evoluir em termos de risco e retorno (quanto mais retorno buscar, mais risco deve se dispor a correr).

Depois disso, o trabalho será olhar para os ativos que tem na carteira e se perguntar se as ações estão bem diversificadas, se faz sentido alocar apenas em ações brasileiras ou vale olhar para o exterior, se estão no melhor veículo olhando a questão tributária, etc. Acho que é isso, espero que tenha ajudado.

Roberto C. Agi é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: [email protected]

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