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“Como investir com R$ 100?”

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Cezar Chiarantano Junior, CFP®, responde:

O senso comum ainda associa investimentos a um ato restrito às condições de alta renda e patrimônio, ou seja, distante da realidade da maioria das pessoas. Além disso, o histórico inflacionário, desejos e necessidades de consumo não contribuem para despertar no brasileiro a visão de longo prazo nas suas decisões de uso do dinheiro.

Investir 100 reais, que para muitos pode parecer pouco dinheiro, representa 5% do orçamento mensal de uma renda aproximada de 2 mil. Então, é a capacidade de gerar excedente a primeira condição para se tornar um investidor. Alguém com 100 reais para investir pode estar no caminho de evoluir da educação financeira para o planejamento dos seus objetivos de longo prazo.

As diferentes alternativas e estratégias de investimento para 100 reais não diferem muito, em conceito, para os que têm à disposição valores maiores, mas sim, em número de itens e sofisticação disponíveis. Um investidor pode alocar 100 reais em títulos públicos (via tesouro direto, no dia 11/12/2019, havia pelo menos 8 opções com aplicação mínima abaixo de 50 reais), comprar ações (mercado fracionário ao invés de lote), CDBs, Fundos de Investimentos e Fundos de Previdência, embora para estes últimos as opções são, de fato, mais escassas.

E a Poupança? Pode ser uma opção tática até que se acumule 1.000 reais, pelo menos, para depois acessar outros produtos com maior nível de exigência de entrada. É importante frisar que a condição que se leva em conta aqui é a de que se trata do primeiro passo do indivíduo como investidor, pois é muito comum em Fundos, principalmente, uma exigência de entrada maior (p.e, 1.000 reais) ao passo que nos aportes adicionais, estas restrições são bem menores ou até inexistentes.

Entendo a questão central de “Como investir com 100 reais?” que o mais importante não está no produto – as opções são mesmo maiores conforme aumenta o montante disponível – mas na estratégia, ou melhor, no objetivo que está na mira deste investimento, o que pode variar muito dependendo das condições pessoais. Vamos a alguns exemplos:

  1. Estagiário de 17 anos, recebe seu primeiro salário, ainda reside com os pais e seus compromissos de orçamento são basicamente o custeio de seu dia a dia e algum lazer nos finais de semana;
  2.  Mulher de 30 anos, mãe de 2 filhos, crianças, e que trabalha sem vínculo formal para ajudar no custeio das despesas;
  3. Assalariado de 25 anos em ascensão de carreira, pretensão de casamento e formação de família em até 5 anos, mas ainda sem reservas dado que seus esforços até agora foram em custear sua formação profissional.

Está evidente que, para o estagiário, investir 100 reais em uma ação na bolsa e arriscá-lo a valer menos daqui 1 mês é bem menos impactante, ele pode esperar um pouco mais e o valor da ação se recuperar ou, no mínimo, estará aprendendo o que é um investimento de alto risco. Já para a mãe de família os 100 reais podem significar não atrasar uma conta no mês seguinte, então este valor precisa estar facilmente disponível e preservado: um fundo com liquidez imediata atrelado ao CDI, por exemplo, pode ser o mais adequado. Por fim, uma vez que o jovem profissional está em fase de aumento de renda e tem um objetivo claramente definido, ele poderia abrir mão da disponibilidade imediata dos recursos a fim de melhor remunerá-los até o momento exato de precisar deles: um título Tesouro IPCA, provavelmente.

E, considerando que investimento é qualquer uso de recursos financeiros que possibilitem obter mais recursos financeiros adiante, uma confeiteira teria a opção de investir estes 100 reais em qualquer utensílio que a fizesse fazer bolos mais rápido, vender mais e aumentar seu faturamento; ou um estudante pode contratar um curso online para se capacitar acerca daquela ferramenta tecnológica e se sair melhor na próxima entrevista de emprego.

Mas, uma necessidade é comum a todos: a de formar uma reserva para emergências no total de 6 a 12 meses de suas despesas mais comuns e, salvo situações de exceção, este é o melhor objetivo para os primeiros 100 reais em investimento de qualquer indivíduo, escolhendo um produto de baixíssimo risco (normalmente Tesouro Selic ou Fundos taxa zero com lastro nestes títulos) e de fácil e rápido resgate.

As principais mensagens por trás de 100 reais disponíveis para investimento são:

a) parabéns, você é capaz de gerar excedentes;

b) priorizar a formação de sua reserva de emergência;

c) a prosperidade advém de nossas capacitações e força de trabalho, mas podemos e devemos usar do mercado financeiro para ganhar eficiência e proteger o nosso patrimônio, traçando uma estratégia para este período de acumulação.

Finalmente, é a consistência que é tão ou mais importante do que o valor em si.

Cezar Chiarantano Junior é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. Email: cezar.chiarantano@gmail.com.         

As respostas refletem as opiniões do autor, e não do site ÉpocaNegócios.com ou da Planejar. O site e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

Texto publicado no site Época Negócios em 07 de janeiro de 2020.