Com juro baixo, devo levar aplicações para a bolsa?

“Com a queda da taxa Selic devo agora direcionar as aplicações mais para a bolsa?”

José R. Faria Júnior, CFP®, responde:

Caro leitor(a),

Os brasileiros têm aproximadamente R$ 5 trilhões aplicados em fundos de investimento, caderneta de poupança, Tesouro Direto, títulos de renda fixa, ações, previdência privada e fundos de pensão. Ao analisar esses dados, em torno de 85% dessa quantia está aplicada em renda fixa e 15% em renda variável, o que indica um comportamento mais conservador da maioria das pessoas.

A recente queda da taxa Selic para 6% ao ano e a perspectiva desta taxa cair mais e atingir 5,5% ao ano ao final de 2020 (relatório Focus do Banco Central de 12 de agosto), tem gerado a sensação de que se deve migrar para aplicações mais arriscadas o quanto antes. Mas, antes de prosseguir, é preciso compreender dois conceitos para investir: retorno real e risco.

Retorno real é o quanto o dinheiro se valorizou ao longo do tempo após descontar os efeitos da inflação, o custo de aplicação e o Imposto de Renda (IR). Supondo uma taxa Selic atual (efetiva de 5,90%), inflação de 3,75% (meta de longo prazo do Banco Central), custo de aplicação de 0,25% (idêntico ao do Tesouro Direto) e IR de 15%, o retorno real será abaixo de 1% ao ano e quase três vezes menor que a média dos últimos 10 anos!

Risco está relacionado à perda e deve-se arriscar mais para ganhar mais. Mas, será que realmente compreendemos isto ou apenas respondemos “sim” na esperança de que as perdas aconteçam apenas com os outros?

Dentre várias situações que ocorrem com alguma frequência, como reagiria nos casos a seguir:

1) No dia 14 de agosto, o Ibovespa caiu 2,94%, a metade do retorno anual projetado para a Selic. Sabendo disso, ficaria calmo e entenderia que volatilidade é uma característica do mercado de ações e eventualmente aproveitaria a queda para comprar mais barato ou tenderia a resgatar a aplicação?

2) Os fundos de renda fixa de crédito privado (que investe em dívidas de empresas, como debêntures) rende, em geral, mais do que a taxa Selic. Suponha que em determinado mês um título que representa 2% da carteira não é pago. Esse fato provocará uma perda do investimento equivalente a 33% da taxa Selic anual. Você está preparado para encarar esse retorno mais baixo?

O leitor deve ter em mente que aplicações mais arriscadas podem fazer muito sentido, mas antes de “apimentar” os investimentos questione: “estou em qual fase da vida?”; “por que elevar o risco dos meus investimentos?”; “qual meu nível de tolerância a perdas?”; e “como diversificar para minimizar riscos?”.

O primeiro passo é responder ao questionário API para conhecer o perfil de investidor. O segundo passo é ter reserva de emergência equivalente a pelo menos seis meses das despesas, que deve estar em investimento conservador e com liquidez diária.

O terceiro passo é diversificar os investimentos de acordo com os seus projetos de vida e perfil de investidor. Assim, os mesmos cuidados que se deve tomar previamente antes de praticar uma atividade física intensa, deve-se tomar antes de elevar o risco nos investimentos: procurar um especialista.

Deve-se ressaltar que investimento é apenas um pedaço da sua vida financeira, logo, há algo maior: o planejamento financeiro pessoal. Esse planejamento engloba: controle do fluxo de caixa (receitas e despesas); seguros (residência, saúde, veículo e invalidez, entre outros); planejamento tributário; planejamento da aposentadoria; sucessão familiar; e investimento. Consulte um planejador financeiro certificado e tenha orientações sobre como planejar o seu futuro com segurança.

José R. Faria Júnior é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP (Certified Financial Planner) concedida pela Planejar – Associação Brasileira dos Planejadores Financeiros. E-mail:[email protected].

As respostas refletem as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico ou da Planejar. O jornal e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para: [email protected].

Texto publicado no jornal Valor Econômico em 25 de agosto de 2019.