Com a alta do dólar, é hora de repatriar recursos para o Brasil?

“Eu sempre ouvi que é importante diversificar globalmente. Tenho uma pequena reserva no exterior, fruto de alguns anos que trabalhei como expatriado. Como as taxas de juros nos países desenvolvidos está muito baixa e o real se desvalorizou, eu deveria trazer esse investimento? Ele representa 20% das minhas economias.”

Rodrigo Assumpção, CFP®, responde:

Caro leitor,

Obrigado pela pergunta que nos permite abordar um tema tão importante, mas que muitas vezes é deixado de lado na composição patrimonial das famílias.

Existem motivos históricos e comportamentais que justificam o fato de hoje a diversificação em outras moedas e geografias não ser realidade para a maioria de nós brasileiros, porém aos poucos temos que ir mudando esse quadro. Aqui estão 3 desses motivos:

  1. Nossa economia sempre foi muito fechada, e isso dificultava (na maioria dos casos inviabilizava) qualquer investidor médio de realizar investimentos no exterior, limitando esse acesso, quando muito, aos detentores de grandes fortunas. Nos últimos anos isso tem mudado bastante, e hoje é muito mais simples abrir uma conta fora do país, ou mesmo investir em fundos no Brasil que compram ativos no exterior;
  2. A taxa básica de juros da nossa economia (SELIC) era excessivamente alta, ou seja, nossas aplicações rendiam acima de 10% ao ano em um título garantido pelo governo, assim não era nada convidativo investir no exterior para obter retornos muito inferiores. Isso também mudou bastante, atualmente a SELIC está em 3% ao ano, reduzindo muito o diferencial que vimos no passado;
  3. Por último, existem fatores comportamentais que nos impactam muito além do que imaginamos. Temos uma autoconfiança naturalmente excessiva em nossas convicções, e temos muito mais conforto com aquilo que está próximo de nós. Apenas para ilustrar, é comum presenciarmos investidores que aceitam facilmente investir nas tradicionais e conhecidas empresas brasileiras, mas resistem a investir em empresas americanas ou europeias, ainda que essas sejam 5x maior que a empresa brasileira, e com melhores perspectivas. A proximidade nos traz conforto e muitas vezes nos faz tomar decisões que nem sempre são as melhores.

Voltando a sua questão, o mais recomendável é que olhe para essa posição com uma visão de longo prazo, e evite tentar acertar o momento exato de sair totalmente dela, ainda que você possa sim fazer alguns ajustes como abordaremos a seguir.

Em algum momento no passado você definiu que esses 20% estavam ideais na composição do seu portfólio, respeitando seu perfil de investidor. Para não ficar apenas nesse exemplo, vamos imaginar que naquele mesmo momento você tenha definido também que o ideal para sua carteira era ter 10% em ações.

Existe um simples e eficaz exercício de reajuste que podemos fazer periodicamente:

Caso a alta do dólar tenha feito a parcela investida no exterior crescer mais que o restante da carteira, levando essa fatia a representar agora 25% do seu total, você poderia reduzir os 5% e voltar a alocação para os 20% definidos inicialmente como ideais.

Imaginemos que, no mesmo período, a bolsa caiu 30%, e seus 10% iniciais em ações agora representam apenas 7% do total. Então você poderia investir um pouco mais em bolsa para retornar aos 10% ideais.

Essa prática faz com que você aproveite os movimentos de queda para investir um pouco mais, e os movimentos de alta para realizar parte do lucro, sem em nenhum dos casos tentar acertar em um movimento de “tudo ou nada”.

Como o passado recente influencia muito nossas decisões, infelizmente a maioria das pessoas tem como prática justamente o movimento contrário, ou seja, compram no meio da euforia (na alta) e vendem em períodos de realização (na baixa).

Então respondendo objetivamente sua pergunta, manter essa parcela investida no exterior é uma ótima decisão, talvez sendo necessário apenas reajustar o percentual que ela representa.

Ter uma boa divisão do portfólio, respeitar seu perfil de risco e ter a tranquilidade para aproveitar momentos oportunos para realizar os ajustes necessários são as atitudes que garantirão bons frutos a longo prazo. Boa sorte.

Rodrigo Assumpção é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: [email protected]

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Texto publicado no jornal Valor Econômico em 22 de junho de 2020.