Outra versão de uma mesma história

Marcia Dessen, CFP®:

As plataformas de investimentos não se cansam de tentar convencer os milhões de brasileiros que investem na poupança a migrar para “produtos seguros, de resgate simples, com rentabilidade de verdade”, sem, entretanto, dizer quais são eles.

Tentam atrair os investidores criticando a concorrente —a poupança, em vez de argumentar a favor dos produtos que oferecem.

A fortuna de R$ 1 trilhão depositada na poupança é um alvo cobiçado. Como somente os bancos e a Caixa podem captar recursos em poupança, essas instituições não conseguem abocanhar um pedaço dessa fortuna, a não ser que o próprio investidor decida sair da poupança.

O principal argumento, entre os muitos elencados, é o de que a poupança rende pouco. Alguns dizem que a rentabilidade é negativa, perde para a inflação, ignorando que há inúmeras aplicações na mesma situação.

Em uma carta de despedida, uma corretora coloca em dúvida a segurança da poupança ao mencionar o susto do confisco de 1989. Omite que o confisco bloqueou o acesso a todos os recursos, inclusive os depósitos em conta-corrente, deixando livres apenas as aplicações em Bolsa de Valores.

Tudo indica que a segurança é o fator-chave que motiva o investidor a permanecer na poupança, disposto a renunciar a alguma rentabilidade para se sentir mais seguro, em razão da rentabilidade positiva e constante e da garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos). Adicionalmente, a simplicidade do produto, a ausência de taxas e a isenção do Imposto de Renda formam um conjunto de atributos difícil de substituir.

Muitas das alternativas “mais rentáveis” são, potencialmente, mais rentáveis. Entretanto, menos seguras e inadequadas para investidores de perfil conservador, com baixa tolerância a risco.

Ações, fundos de ações e fundos multimercado são muito mais arriscados do que a poupança, assim como os títulos de renda fixa com carência e alto risco de crédito. Uma distância gigantesca entre uma coisa e outra, tanto pela complexidade quanto pelo nível de risco.

Não são alternativas comparáveis. A rentabilidade das aplicações mais conservadoras, como Tesouro Selic e fundos DI, sofre com a oscilação da taxa de juros, chegando a apresentar variação negativa a curto prazo, possibilidade impensável para os superconservadores investidores da poupança.

Propagandas focadas em produtos, em rentabilidade, tendem a ignorar o perfil do investidor, o que ele quer e o que ele não aceita. Uma abordagem tendenciosa, muitas vezes incorreta e omissa em relação aos riscos e aos custos de investir.

Trago outro exemplo de propaganda infeliz contida em mensagem enviada aos clientes por um dos maiores bancos do país. Um convite a “realizar o futuro que planejou, reformar a casa, organizar uma festa para celebrar uma data especial, férias para o tão merecido descanso ou apenas economizar para emergências”.

Sabem que produto é esse? Um título de capitalização. Segundo a Susep, órgão regulador das sociedades de capitalização, um instrumento que possibilita a participação em sorteios e estimula o hábito de guardar dinheiro, já que os títulos com pagamento em atraso não concorrem aos sorteios.

Como não se trata de investimento, a rentabilidade tende a zero, o produto tem carência, obriga o depósito do valor definido e pune resgates antecipados, devolvendo apenas parte do dinheiro “guardado”.

Como um produto com essas características, omitidas na propaganda, pode realizar a lista de desejos sugerida? Não pode, sendo possível apenas para os pouquíssimos afortunados contemplados no sorteio.

Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo em 23/11/2020