Emoções à flor da pele

Marcia Dessen, CFP®:

Estamos vivendo um turbilhão de acontecimentos ruins, com enorme impacto em nossas vidas. Governos, empresas e pessoas estão revendo suas políticas e hábitos para tentar preservar vidas e evitar o caos.

A saúde, de cada um de nós e das pessoas com as quais nos relacionamos, é a primeira coisa a ser preservada. O isolamento que nos protege fisicamente requer atenção e cuidado com nossa saúde mental e emocional.

As emoções estão à flor da pele. O momento é tenso, precisamos de equilíbrio, bom senso e espírito de solidariedade.

A Covid-19 acertou em cheio não apenas a saúde de todos, mas a economia dos países. O “mercado” tem demonstrado, de forma contundente, o impacto negativo na economia como um todo.

Mas, afinal, quem é o senhor mercado? Um grupo de pessoas que agem e reagem, movidos por fatos, expectativas e emoções, nem sempre bem-sucedidos em manter a calma e a razão, quando são dominados por sentimentos incontroláveis de preservação.

Investidores vivenciaram a experiência dolorosa de forte desvalorização dos recursos investidos em ativos de renda variável. Os ativos de renda fixa, de longo prazo e taxa prefixada, também foram impactados negativamente.

A reação em manada complica ainda mais as coisas. Todos querendo vender, sair ou reduzir o risco, e pouquíssimos compradores, dispostos a entrar em um mercado no qual todos buscam a porta de saída.

A interrupção das negociações em Bolsa, mecanismo denominado circuit breaker, impõe uma paralisação forçada, dando às pessoas a chance de parar, pensar, entender o que está acontecendo, avaliar o impacto e tomar decisões não impulsivas.

O mecanismo de stop loss, limite de perda definido por investidores e gestores de carteiras, obriga-os a vender ativos, mesmo que essa atitude contrarie sua percepção pessoal, mesmo que o preço esteja muito abaixo do que o tecnicamente estimado.

O mecanismo foi criado exatamente para afastar as emoções das decisões racionais que precisam ser tomadas. Entretanto, como aumenta a pressão de venda, contribui ainda mais para a queda dos preços e a ampliação das perdas.

Alguns investidores em fundos de investimento cogitaram resgatar suas cotas tentando preservar parte do capital investido, mas descobriram que o dinheiro permanece em risco por mais 30 ou 60 dias, conforme a regra de conversão das cotas no momento do resgate.

O administrador do fundo acata o pedido de resgate em D-zero, dia do pedido, entretanto, o cotista não sabe o valor pelo qual suas cotas serão convertidas em dinheiro.

O gestor tem 30 dias (ou mais) para decidir que ativos irá vender e quando fará a venda, gerando caixa para pagar os resgates solicitados.

Esse é outro mecanismo que tenta afastar as pessoas, investidores e gestores profissionais, de emoções que comprometam a tomada de decisão. Pressão e estresse não são bons companheiros na hora de decidir.

Pausa também para pensar se houve planejamento antes de investir, se a quantia de recursos alocada em risco foi adequada, refletir se a hipótese de perdas foi considerada, se o risco foi devidamente avaliado e como reagiríamos a ele.

Certamente um aprendizado para todos, pensar no individual e no coletivo com responsabilidade, controlar a ansiedade e o estresse, manter a calma, fazer o melhor que for possível dadas as circunstâncias de cada um.

Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo em 23/03/2020