Como avaliar risco de conflito de interesses

Acabo de contratar um planejador financeiro para me auxiliar na montagem e implementação de um plano para a acumulação dos recursos necessários para que eu me aposente aos 60 anos. Mas, ao saber que a maior parte da remuneração dele será feita pela instituição a qual é associado, me veio a preocupação de que ele possa me recomendar investimentos mais interessantes para ele do que para mim. Isto pode acontecer?

Marcus Matos, CFP®:

“Conflito de interesses” é algo muito importante a se prestar atenção. Se pararmos para pensar, pode estar presente nos mais diversos ramos da nossa sociedade. Exemplifico: quando vamos a um médico que nos receita um determinado medicamento, esta decisão é pautada na melhor solução para a cura do mal que nos aflige ou em algum incentivo de determinada empresa farmacêutica? Na oficina mecânica, é consertado o que está com problema ou outras peças do carro são envolvidas desnecessariamente? Na escola dos nossos filhos, como são definidos os livros que serão utilizados a cada ano? E por aí vai… 

Assim, antes de mais nada, é importante lembrar que um planejador financeiro, uma vez que preste um bom serviço, tenderá a fazê-lo ao longo de toda a vida do cliente. Inclusive, à medida que o tempo passa, as necessidades do seu cliente devem aumentar, seja porque o patrimônio dele tende a crescer, seja porque outros assuntos, como sucessão patrimonial, terão que entrar na pauta. Ou seja, o profissional que priorizar o seu rendimento pessoal de curto prazo em detrimento dos interesses do cliente, além de ir contra as normas de atuação, desperdiçará a oportunidade de ter uma relação “ganha-ganha” de longa duração. 

De qualquer forma, com o intuito de mitigar o risco de contratação de um mau profissional, enumero três ações importantes:

– Analise o currículo e entenda os objetivos de carreira: a profissão de planejador financeiro é relativamente nova no mercado brasileiro, assim é muito importante entender a trajetória que levou o profissional a chegar até ela e entender o que ele espera de sua carreira futura. Quanto maior a experiência da pessoa com o mundo das finanças e o envolvimento dela (que especializações ele tem? Ele é um CFP? De que forma ele se atualiza?) com esta profissão, menor será a chance de ele não ter você como prioridade total. 

– É recomendado? Se este profissional chegou a você indicado por alguém que você conheça, melhor! Se possível, peça para conversar com outros clientes dele e lembre-se de que uma reputação é pavimentada ao longo de anos de trabalho mas pode ser destruída em poucos minutos. Ou seja, se este profissional “vive” da indicação de seus clientes, ele certamente tomará muito cuidado com as orientações que faz. 

– Acompanhamento estreito: por mais que você tenha pouco tempo, acompanhe seus investimentos, analise os resultados e faça perguntas. Quanto maior o seu envolvimento, mais atento seu planejador estará e mais profundas serão suas recomendações Além do mais, o bom planejador adora esclarecer as dúvidas de seus clientes e perceber o valor que o seu serviço agrega.

Ainda assim, mesmo com as ações listadas, se em algum momento você detectar uma conduta deste profissional que não esteja de acordo com as normas emitidas pela CVM e demais entes reguladores, você deve comunicar o fato à Ancord (no caso de agente autônomo de investimentos), à própria CVM e também ao IBCPF (no caso de planejador financeiro CFP), cujos profissionais são obrigados a seguir um Código de Ética e Responsabilidade Profissional. Estas instituições farão a devida apuração, penalizando o profissional se a infração for comprovada.

Marcus Matos é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. Email: [email protected] 


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