Experiência de tomador conta na aprovação de crédito?

Nunca fui grande investidora, mas nunca fiz dívidas. Tinha uma reserva de emergência, mas no início da pandemia perdi o emprego e vi minha reserva mês a mês se acabando. Fui ao banco buscar um empréstimo e ele foi negado: o gerente disse que não tenho experiência como tomador. Não entendi!

 

Paula Sauer, CFP, responde:

A pandemia pegou a todos de surpresa, doença, desemprego, queda na renda, home-office, home-schooling, filhos adultos retornando à casa dos pais; a vida de muitos ficou de pernas para o ar, causando muita angústia! Para 42% dos brasileiros os gastos aumentaram, as responsabilidades idem e a rotina mudou radicalmente. Se você sempre esteve do lado investidor, sim, terá provavelmente mais dificuldade em lidar com o crédito, pois você estava habituada a fazer o juros trabalhar para você. No cenário de empréstimo a cena é outra, os sentimentos associados são outros, em um cenário associado às perdas, as pessoas se arriscam mais, e foi isso que o gerente provavelmente enxergou em você. Mais risco em função da pouca experiência com o uso do crédito.

Sabemos que é uma fase, mas ainda não sabemos ao certo por quanto tempo conviveremos com tanta incerteza. Verifique a possibilidade de transformar um hobby em uma atividade remunerada que além da renda, te dará prazer. Veja se é possível reduzir alguma despesa ou modificar a frequência de consumo, faça boas escolhas para que você não tenha que renunciar àquilo que é imprescindível.

Antes de tomar um empréstimo, veja se é possível vender algum bem, ou no limite, oferecê-lo como garantia em troca de uma taxa de juros mais baixa. Explique detalhadamente sua necessidade ao profissional da instituição financeira, para que ele te recomende a modalidade de crédito mais adequada, neste momento. Antes de assinar o contrato não hesite em tirar suas dúvidas.

Fuja dos empréstimos pré-aprovados disponíveis no caixa eletrônico, assim como de empréstimos rotativos (cheque especial e do cartão de crédito). A comodidade pode custar caro; isso porque, são empréstimos sem garantia, sem vencimento e sem condições de pagamento preestabelecidos. Para a instituição financeira, representam modalidades com alto risco de inadimplência, e consequentemente, taxas de juro mais elevadas.

Observe:

  • Quanto a nova dívida representa da reserva de emergência?
  • Quanto dessa reserva de emergência já está comprometida com dívidas e compromissos assumidos anteriormente?
  • Com que dinheiro a dívida será paga? Que despesa do orçamento será reduzida ou eliminada para acomodar o novo compromisso financeiro?

Tenha em mente que o cenário que estamos vivendo não permanecerá para sempre; a economia que é cíclica voltará a aquecer, e junto com ela, boas e novas oportunidades surgirão.

Assim que você se recuperar, reinicie de pronto sua reserva de emergência. Em um cenário, de taxas de juros baixas, você será compelido a se organizar de maneira diferente. Escolha cuidadosamente os produtos e soluções financeiras, de acordo com o seu perfil, considerando o prazo, tolerância a risco, e possibilidades financeiras.

Isso é importante, mas o que vai contar mesmo é o seu comportamento e disciplina, o comprometimento que você já sabe que tem!

Paula Sauer é planejadora financeira pessoal e possui a certificação CFP (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: [email protected]

As respostas refletem as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico ou da Planejar. O jornal e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para: [email protected]

Texto publicado no jornal Valor Econômico em 28 de dezembro de 2020.