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Deflação pode reduzir ganho com título indexado a preços?

“Sou aposentado e além do INSS, complemento minha renda mensal com resgates e rendimentos de investimentos que tenho, inclusive títulos do governo. Com a deflação do IPCA, estou preocupado com o rendimento das minhas NTN-B (título indexado) que pagam juros semestrais. O valor que recebo semestralmente pode diminuir com a deflação?”

Ricardo Gomes da Silva, CFP®, responde:

Sim, caro leitor. Mesmo que você não tenha efetuado nenhum resgate de suas NTN-Bs (Tesouro IPCA+ com juros semestrais, uma das opções de títulos públicos ofertados pelo Tesouro Direto) ao longo do semestre, se houver deflação, o valor nominal bruto (antes de descontar taxas e impostos) recebido será menor. Isso acontece porque os juros pagos semestralmente por esses títulos são calculados sobre um valor de referência que é corrigido mensalmente pela variação do IPCA.

E esse valor é, por sua vez, multiplicado pela quantidade de títulos que possui. Porém, se além dos juros semestrais, o leitor precisar vender esses títulos antes de seu vencimento, o valor do resgate dependerá do valor de mercado e não da variação do IPCA.

É importante enfatizar que a taxa de rendimento do seu investimento, que chamamos de juros nominais, é composto de juros reais mais inflação. Se a inflação cair e os juros reais se mantiverem inalterados, os juros nominais também serão reduzidos. Mas isso não é desvantajoso, já que apenas a correção da inflação será afetada. Logo, se você resgatar apenas esse rendimento real para complementar sua renda mensal, seu patrimônio aplicado será preservado e corrigido pela inflação.

Teoricamente, essa estratégia de renda para a aposentadoria preservaria seus investimentos e seu poder de compra no futuro, acompanhando a evolução dos seus custos pessoais.

Mas, da mesma maneira que existem vários índices de inflação, cada um com uma cesta diferente de produtos utilizada para o respectivo cálculo, na prática a sua inflação pessoal é outra e poderá ser, ao longo da sua vida, maior ou menor do que os índices que remuneram seus investimentos e reajustam seu benefício do INSS.

O IPC-3i, por exemplo, índice calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) para medir a evolução dos custos de vida de pessoas com mais de 60 anos, acumula alta de 3,51% nos doze meses findos em junho de 2017, enquanto o IPCA teve alta de 3% e o INPC, de 2,56% no mesmo período.

Por isso, a importância de cuidar de seus investimentos, para que a rentabilidade deles no mínimo acompanhe a evolução dos seus custos e estejam adequados aos seus objetivos, além de fazer um orçamento para conhecer com detalhes esses custos e como eles se comportam com o tempo, garantindo que eles não ultrapassem a renda mensal proporcionada.

Lembre-se também dos gastos que não ocorrem todos os meses, como IPVA, IPTU, seguros e manutenções do carro ou da casa, além das viagens, é claro. Para isso deve haver folga no orçamento mensal para provisionar recursos para esses gastos anuais e também para outros objetivos de médio prazo, como a troca do carro ou reforma da casa.

Mantenha também, como reserva para emergências, um montante de recursos investidos em renda fixa, com liquidez e baixo risco, como em Tesouro Selic ou fundos DI de baixo custo.

Um planejador financeiro certificado poderá lhe ajudar a estabelecer esse orçamento, orientá-lo na estratégia de alocação dos investimentos bem como nas ferramentas necessárias para o acompanhamento.

Bons investimentos e aproveite sua aposentadoria com qualidade de vida.

Ricardo Gomes da Silva é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: ricardo.gomes@lifefp.com.br.

As respostas refletem as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico ou da Planejar. O jornal e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para: consultoriofinanceiro@planejar.org.br.