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Como funciona o seguro de vida resgatável?

Ouvi falar de uma opção de seguro de vida resgatável. Como funciona? É uma boa opção?

Feliphe Pereira, CFP®, responde:

Caro leitor, primeiramente é preciso parabenizá-lo pela sua preocupação com a proteção familiar, tema frequentemente deixado de lado por grande parte dos brasileiros e que, quando tratado no âmbito de um planejamento financeiro, oferece tranquilidade e pode garantir a concretização dos projetos de vida de uma família.

Os seguros de vida resgatáveis, inspirados em soluções já consolidadas no exterior, ganharam popularidade no Brasil nos últimos anos, atraindo principalmente pessoas preocupadas com a proteção familiar, mas que enxergavam os seguros tradicionais como um dinheiro jogado fora.

Quando avaliamos soluções financeiras, é importante ter em mente que cada produto possui uma função específica, com características que envolvem a forma de desembolso, os benefícios, os riscos e as consequências tributárias e sucessórias, que devem estar alinhadas às nossas necessidades e objetivos.

A proteção familiar é certamente um objetivo (mesmo que inconsciente) para grande parte das pessoas e, nesse contexto, a principal função dos seguros de vida é garantir a tranquilidade financeira em caso de situações que interrompam a geração de renda pela pessoa responsável pelo sustento da família, decorrentes de uma eventual invalidez, doença grave ou falecimento.

O seguro resgatável consiste numa modalidade de seguro de vida que, além dos atributos acima, permite que o segurado resgate uma parte do valor de contribuição em vida, sendo que esse resgate normalmente começa com um percentual bem reduzido a partir de dois anos de contribuição (carência de resgate) e pode chegar a 100% do valor a partir de dez anos, com o valor corrigido pela inflação acrescido de alguma rentabilidade.

Fora a questão do resgate, uma outra vantagem em relação aos seguros tradicionais é que as parcelas não aumentam em função do tempo/idade, sendo geralmente corrigidas apenas pela inflação, o que evita surpresas desagradáveis para o segurado, que, em muitos casos, acaba perdendo o seguro de vida tradicional por não conseguir pagar as parcelas à medida que o valor aumenta com a idade.

Até aqui estamos indo muito bem, mas infelizmente também temos que ponderar algumas desvantagens dos seguros resgatáveis, e a máxima do mercado financeiro de que “não existe almoço grátis” também se aplica nesse caso, em que o principal ponto de atenção é justamente o preço (conhecido como “prêmio”) do seguro resgatável, que costuma ser três ou quatro vezes superior ao preço de um seguro comum. Isso porque uma parte do valor pago precisa ser direcionada para a formação da reserva, enquanto a outra parte cumpre o papel de um seguro tradicional.

Dessa forma, para avaliarmos se vale a pena contratar um seguro resgatável, é preciso entender o contexto financeiro e patrimonial da família, como, por exemplo, a possibilidade de resgate do seguro em pouco tempo ou a capacidade financeira para arcar com os custos mais elevados de um seguro resgatável durante os próximos anos (ou até mesmo décadas). Dependendo do caso, o seguro resgatável poderia se tornar uma opção “muito arriscada” sob o ponto de vista financeiro, e um seguro tradicional aliado a algum tipo de investimento seria a alternativa mais adequada.

Vale ressaltar que, se o objetivo for a construção de uma reserva financeira para aposentadoria, ou o acúmulo de capital para realização de um projeto, existem soluções financeiras mais adequadas que o seguro resgatável, tanto em termos de rentabilidade quanto em termos tributários e de liquidez. Considerando o universo de variáveis que envolvem essa decisão, o apoio de um planejador financeiro pode contribuir para o desenho da alternativa mais adequada aos objetivos da família, bem como para a análise dos preços praticados para cada solução.

Feliphe Pereira é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: fepe177@yahoo.com.br

As respostas refletem as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico ou da Planejar. O jornal e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para: consultoriofinanceiro@planejar.org.br.