Como acompanhar investimentos feitos em diferentes instituições?

“Tenho buscado ser um investidor assíduo, mas hoje minha dificuldade é de acompanhar os mais de 30 investimentos que possuo. O que é recomendável para facilitar a análise dos meus investimentos?”

Enio Secchi, CFP®, responde:

Essa questão é muito pertinente e atual. Com a queda da taxa SELIC para patamares sem precedentes e com o aumento e popularização das ofertas de produtos de investimento financeiro, o desafio do investidor agora não é, somente, a escolha dos ativos, mas também, de como fazer o acompanhamento adequado de sua carteira.

Até pouco tempo atrás o investidor brasileiro médio ficava com sua reserva financeira concentrada em apenas uma instituição financeira e, muitas vezes, concentrada em apenas uma modalidade de investimento. Era uma realidade de taxa básica de juros de dois dígitos onde bastava a escolha de um bom fundo de renda fixa ou tesouraria de banco para remunerar o seu capital com baixo risco e uma rentabilidade aceitável. Consequentemente, o acompanhamento da rentabilidade da carteira também ficava fácil: bastava o extrato mensal do produto, que trazia consigo a rentabilidade nominal daquele período e o único trabalho do investidor era compará-lo com algum benchmark, como o CDI ou índice de inflação, descontar o imposto de renda e pronto! Estava feita a análise de sua carteira.

Com a evolução do Mercado de Capitais no Brasil regulamentando e popularizando novos produtos, com o salto tecnológico permitindo ao público a aquisição de ativos até pelo smartphone e com o aumento das plataformas de investimentos oferecendo oportunidades de investimentos para fazer frente à queda sucessiva de juros dos últimos anos, são cada vez mais comuns os casos de investidores, como o do nosso leitor, que acumulam linhas e mais linhas de ativos em suas carteiras e agora se deparam com as mesmas dúvidas: como acompanhar a rentabilidade de cada investimento e da carteira como um todo? Com qual benchmark devemos comparar sua performance? E ainda, quando promover rebalanceamentos para reduzir seu risco?

Caso você, leitor, seja cliente de um banco ou corretora que já ofereça soluções tecnológicas para gestão de carteiras, uma parte do seu problema está resolvido. Em geral, estas instituições trazem em seus aplicativos o resumo da carteira contendo a rentabilidade ponderada com todos (ou quase todos) os ativos, comparando-a com mais de um benchmark (CDI, Ibovespa, Dólar ou IMA-B), permitindo comparações por períodos diferentes para que o investidor possa analisar o comportamento da carteira de uma forma mais lúdica, através de gráficos, além de visualizar sua evolução patrimonial.

Porém, se você for cliente com investimentos em mais de um banco ou corretora, aí as coisas começam a ficar mais complicadas. Como os sistemas destas instituições não se conversam, para que o investidor tenha a visão global de sua carteira, será preciso consolidá-la de alguma forma. Seja através de uma planilha eletrônica, seja através de algum aplicativo, ambas alternativas resultarão em um certo trabalho. A primeira opção exige algum conhecimento em planilhas eletrônicas para que seu resultado permita uma análise razoável e possa subsidiar algumas tomadas de decisão. Mas aqui vai um alerta: prepare um tempo para se dedicar a isto, principalmente na fase do seu desenvolvimento.

Para a segunda alternativa, uma rápida pesquisa na web também trará alguns aplicativos (apps) que oferecem estes serviços, gratuitos ou pagos, com vantagens e desvantagens. A desvantagem que mais se repete entre eles é a alimentação manual dos dados e a falta de suporte para as diversas modalidades de investimentos. Mas dependendo do tamanho e características de sua carteira, podem ser uma solução suficiente. Outras fintechs (startups de serviços financeiros) prometem ir além, conseguindo acessar seus dados nos bancos e corretoras, mediante autorização prévia do investidor, para fazer esta consolidação de forma automatizada. É o embrião do Open Banking, sistema que permite o compartilhamento seguro das informações entre as instituições financeiras e os aplicativos parceiros. Contudo, o modelo ainda está em processo de regulamentação no Brasil, causando certa insegurança no investidor ao deflagrar sua senha digital dos bancos e corretoras aos aplicativos, e às próprias instituições que precisam proteger seus sistemas de eventuais fraudes eletrônicas.

Por fim, procure orientação de um consultor autorizado pela CVM em sua cidade ou região. Estes profissionais são licenciados para prestar este serviço e ajudar o investidor enfrentar com inteligência e ponderação este novo cenário do mercado financeiro, principalmente com o aumento da volatilidade e percepção de risco em momentos como o que estamos vivenciando com a pandemia do coronavírus. Até porque uma boa análise de carteira não se encerra na consolidação de dados e comparação com índices. Há a análise do risco versus retorno, não citada acima, que serve para definir momentos de rebalanceamento da carteira de acordo com seu perfil de investidor e objetivos do investimento. E não pense que esta consultoria é apenas para um restrito grupo de investidores endinheirados do segmento Private Banking, se este não for o seu caso. Muitos destes planejadores financeiros, que para este atendimento, precisam ser, também, consultores autorizados pela CVM, já possuem planos de serviços para atender pequenos e médios investidores, com custos viáveis para construir uma boa e adequada estratégia de investimento.

Enio Secchi  é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: [email protected]

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Texto publicado no jornal Valor Econômico em 11 de maio de 2020.